ENTREVISTA – FRANCISCO DEGELO
“Eu entendo que até 2030 a demanda por data centers seguirá muito aquecida. Indo um pouco além: acho que a década de 2030 como um todo vai ser bem interessante para esse mercado”. A análise é de Francisco Degelo, Latam Sales Manager da Vertiv, que concedeu entrevista à Revista Potência.
Nesta conversa, o executivo avalia como está o mercado de data centers no Brasil no momento e quais são as perspectivas para os próximos anos.
Ele também dá detalhes sobre a atuação da empresa na área e conta sobre a preocupação da Vertiv em atender requisitos de eficiência energética e sustentabilidade na construção e operação de data centers.
A Vertiv integra hardware, software, análises e serviços contínuos para garantir que as aplicações vitais de seus clientes operem sem interrupções, com desempenho ideal e escala conforme as necessidades dos negócios. A Vertiv resolve os desafios mais importantes enfrentados pelos data centers atuais, redes de comunicação e instalações comerciais e industriais, com um portfólio de soluções e serviços de energia, refrigeração e infraestrutura de TI que se estende da nuvem à borda da rede.
Confira a seguir a entrevista completa com Francisco Degelo.
Potência – Como está o mercado de data centers no Brasil atualmente? Este é um mercado em evolução no país? Por quê?
Francisco Degelo – O nosso mercado não só está em evolução – está em ebulição. O segmento de data center no Brasil especificamente, mas também na América Latina como um todo, cresce dois dígitos de forma consistente já faz muitos anos. Cresceu durante a pandemia e segue crescendo porque a nossa região tem muito potencial de demanda. Muita da nossa demanda é processada fora do país ainda. Some-se a isso o fato de que o processo de transformação digital da economia começou de forma tardia e concluímos que nosso potencial de crescimento segue sendo gigantesco. As empresas hoje precisam de serviços digitais mais robustos, precisam de mais serviços digitais para aumentar a produtividade. Vale destacar que já faz três anos que o planeta começou a conversar sobre inteligência artificial (IA), sobre as necessidades de infraestrutura para sustentar os ambientes digitais de inteligência artificial. Nesse ponto, o Brasil agrupa uma série de características que coloca nosso país em evidência. O Brasil foi descoberto por grandes operadores como uma região estável geopoliticamente falando. Energeticamente falando, nós temos uma oferta de energia considerada sustentável. Contamos com um pipeline de projetos de geração de energia elétrica para atender consumidores e aplicações de IA. Outro diferencial é que há mão de obra qualificada no nosso país. Todas essas características históricas, atuais e futuras fazem com que o mercado brasileiro esteja chamando muito a atenção dos players globais de infraestrutura digital. Somos alvo do interesse, também, de grandes fundos de investimentos e de fundos de investimentos imobiliários.
Potência – Qual a perspectiva para o segmento de data centers nos próximos anos no Brasil?
Francisco Degelo – Vejo um mercado com demanda aquecida por muitos anos ainda. A gente pensa que o data center é um tipo de infraestrutura, o data center de nuvem, principalmente, é um tipo de infraestrutura que tem um plano de negócios da ordem de 30 anos. O plano de negócio do data center de IA diz respeito a um lapso de tempo de 10 a 15 anos. Até pela sustentabilidade econômica do negócio, o mercado vai trabalhar para esticar um pouco mais esse prazo. Vale destacar que, quanto mais longo o prazo de retorno de investimento em um negócio, menos intensivo ele acaba sendo em capital em relação ao tempo de retorno do investimento. Eu entendo que até 2030 a demanda por data centers seguirá muito aquecida. Indo um pouco além: acho que a década de 2030 como um todo vai ser bem interessante para esse mercado. A infraestrutura de IA está nascendo e a forma com que ela está nascendo ainda está se consolidando. Se hoje o segmento brasileiro de data centers está em ebulição, na década de 2030 seguirá com altas temperaturas e grandes investimentos. Ainda não foi possível fechar o gap entre a nossa demanda interna por serviços digitais tradicionais como nuvem e o que vem de fora. O Brasil precisa entre dobrar e triplicar a capacidade atual de processamento de dados só para fechar esse espaço. É necessário levar em conta, ainda, o crescimento orgânico desse mercado e o desafio de sustentar as infraestruturas da nova realidade baseada em GPUs, baseado em processamentos de modelo de linguagem natural. Isso significa um espaço muito grande a ser coberto. Um ponto a ponderar é que o Brasil enfrenta competidores para receber data centers. Quando a gente fala de investimentos, ainda mais de investimentos em tecnologias em um mercado tão sofisticado como esse, o mundo inteiro quer isso. Players do mundo todo estão correndo para tornar viáveis os novos data centers da era da IA. A farta oferta de energia no Brasil é um diferencial. Há recursos disponíveis em certas regiões do planeta por um custo mais baixo do que elas estão disponíveis em outras. Todos esses fatores mostram a atratividade do Brasil neste momento, e devem fazer o mercado de data centers ficar aquecido ainda por muito tempo.
Potência – Que linhas de produtos/soluções/serviços a Vertiv oferece para o mercado de data center? Quais suas aplicações?
Francisco Degelo – Imaginando que estamos entrando em um grande data center implementado aqui no Brasil, é possível encontrar as soluções e serviços Vertiv em todos os lugares. Cada porta que a gente abre, cada corredor, cada quarto, cada sala do data center terá alguma solução da Vertiv em operação. Onde há infraestrutura digital, há Vertiv. Quando a gente entra no data center, o primeiro elemento que a gente encontra é um painel de distribuição de energia que distribui a potência de entrada, a potência que vem da concessionária ou que vem dos grupos de geração. A energia precisa começar a ser distribuída pelos elementos-chave, pelos elementos críticos. O painel de distribuição de energia é Vertiv. Essa energia continua a ser distribuída através dos nossos produtos para sair desse quadro e chegar até os elementos em que ela precisa chegar. Entram em cena quadros de distribuição intermediários, UPS e baterias – tudo da Vertiv. Dali para frente a energia continua sendo distribuída por barramentos, percorrendo sistemas de distribuição de rebaixamento e de elevação até chegar na tomada do Rack – tudo isso é Vertiv. Portanto, estamos presentes da parede externa do edifício do data center até é a tomada do rack que irá receber computadores e sistemas de TI. Vale destacar, ainda, que cada elétron circulando por dentro de um data center produz calor e esse calor precisa ser retirado. Esse calor precisa ser tratado pela infraestrutura crítica para não se acumular e colocar toda a operação (sistemas de TI que suportam as empresas usuárias do data center) em risco. Seja via ar, ou seja via líquido, esse calor é capturado e condicionado por um equipamento Vertiv. Sejam data centers de um rack ou sejam data centers de milhares de racks, é um equipamento Vertiv que vai fazer a coleta desse calor e que vai transportar esse calor até uma unidade de rejeição ou reaproveitamento do calor. Isso é essencial para reduzir o consumo de energia do data center, já que cerca de 40% da conta de eletricidade do data center vem dos sistemas de refrigeração do site. E, para manter tudo isso funcionando, o visitante do data center vai cruzar com vários profissionais que usam o uniforme da Vertiv dentro dessa infraestrutura. São pessoas formadas e continuamente treinadas pela Vertiv para manter a operação do data center funcionando, extraindo o máximo valor dos equipamentos Vertiv. A meta é trabalhar lado a lado com os gestores do data center para que não surjam imprevistos, para que a operação funcione em céu de brigadeiro. Contamos com centenas de profissionais de serviços Vertiv em atuação na nossa região.
Potência – Como estão no momento as vendas de produtos/soluções/serviços da Vertiv para o mercado de data center? As perspectivas futuras de vendas são positivas?
Francisco Degelo – O momento é tão bom que eu posso dizer que o grande desafio é encontrar algum data center que não tenha equipamentos Vertiv sustentando sua operação. A razão disso é que a Vertiv é uma empresa que se prepara para antecipar soluções e serviços para o gestor do data center. Investimos muito, preparamos recursos humanos e recursos materiais para ser um parceiro confiável e para ter capacidade de produção e entrega de equipamentos quando o negócio precisa. Isso é essencial para que o meu cliente consiga capturar oportunidades de negócios no momento em que a oportunidade surge. O mercado vê na Vertiv um parceiro confiável. Nós não medimos esforços em investimentos para ter sempre a oferta de vanguarda. Pensando que o data center é um negócio que tem que continuar viável por muitos anos, ter a tecnologia correta e pessoas à disposição para manter sua operação é vital. Isso faz parte do plano de negócio dos nossos clientes. Um sinal da forte procura por soluções e serviços Vertiv é o fato da Vertiv Academy ter acabado de passar por uma expansão. Esse data center é um centro de treinamento localizado em Barueri, região metropolitana de São Paulo, para profissionais de data center. Desde sua inauguração, a Vertiv Academy já entregou mais de 8 mil horas de treinamento para mais de 200 profissionais, incluindo clientes e parceiros. A ampliação deste ambiente veio em função da altíssima procura sobre os cursos teóricos e hands-on sobre como operar os equipamentos Vertiv da maneira mais excelente, de modo a acelerar os negócios do data center usuário. Multiplicamos o espaço, os instrutores, o número e o tipo de cursos e a quantidade de alunos. Um diferencial importante é que, na era do data center de IA e de computação de alto desempenho (HPC), a Vertiv Academy passa a oferecer, também, cursos teóricos e hands-on em tecnologias avançadas de resfriamento líquido (Liquid Cooling). Somos pioneiros na transmissão desse conhecimento, algo essencial para que os data centers brasileiros consigam avançar para a IA e racks ultradensos de forma segura, bem gerida e sustentável.
Potência – Quais foram os principais fornecimentos/projetos para data center que a Vertiv participou no Brasil recentemente?
Francisco Degelo – Por contrato não podemos divulgar o nome dos nossos clientes. Um caso público é o da Elea Data Centers, que anunciou um acordo com a Vertiv para o fornecimento de centenas de unidades de distribuição de resfriamento (CDUs) nos data centers da companhia em São Paulo (SP). A iniciativa é parte de um investimento da Elea Data Centers de US$ 300 milhões destinado à Inteligência Artificial (IA). O movimento estratégico na área de IA é importante para atender a demanda de grandes provedores de cloud (os chamados hyperscales) na América Latina. A razão é simples: as aplicações de IA exigem equipamentos de resfriamento que consigam refrigerar de forma eficiente racks com densidade bem acima de 100 kW. É neste contexto que entram em cena as soluções de Liquid Cooling da Vertiv, em que um líquido especial, com características químicas diferenciadas, é colocado diretamente sobre o chip do equipamento de IA.
Potência – Quais são os diferenciais da Vertiv no fornecimento de produtos/soluções/serviços para data centers? Como a empresa se preparou para atender a esse segmento?
Francisco Degelo – O principal diferencial da Vertiv é o investimento constante em atualização. O gestor do data center tem de ter à sua disposição a vanguarda tecnológica, soluções tecnológicas que estão sendo pensadas para as demandas do futuro. Hoje um data center que escolhe o UPS da Vertiv – um provedor de nuvem, por exemplo – já recebe um equipamento preparado para a carga de inteligência artificial (IA), caso em algum momento do futuro precisar fazer essa mudança. Os nossos equipamentos de ar-condicionado são para que a transição no momento futuro seja feita de forma mais suave. Posso dizer com alto grau de probabilidade de acertar que todo o data center que está sendo pensado hoje, irá, num futuro de curto ou médio prazo, se deparar com a necessidade de receber e hospedar soluções de refrigeração baseadas em Liquid Cooling para preservar o ambiente de IA dentro do seu plano de negócio. A Vertiv se prepara para esse mundo: pensamos nas soluções que sustentam o mundo de hoje com os olhos no amanhã. Nosso papel é tão crítico nos data centers que as soluções da Vertiv podem chegar a ser algo entre 40 e 50 por cento do investimento em infraestrutura crítica. A densidade energética de um data center de grande porte nos últimos 15 anos aumentou em média 8 a 10 vezes. A gente saiu de 3 ou 4 kW por rack para algo em torno de 25 a 30 kW por rack – isso se pensando num site de cloud, um site que hospeda infraestrutura de processamento de dados ainda num formato tradicional, resfriado com a infraestrutura baseada em CPUs. Quando a gente vai para a infraestrutura de GPUs (IA), o número de 30 kW por rack pode ser multiplicado quatro ou cinco vezes pelo menos, chegando-se a 120 ou 150 kW (alta densidade). Essa realidade faz com que o montante de investimento em tecnologias da Vertiv ao longo dos últimos anos tenha crescido fortemente, em comparação com outras disciplinas. Se antes a Vertiv representava 10 ou 15%, hoje somos entre 40 e 50% desse investimento. Com essa proporção, a Vertiv passa a ser entendida pelo investidor como um sócio estratégico do negócio, como um sócio de habilitação do novo data center. Estamos presentes no plano de negócio do data center desde o momento inicial. A Vertiv passa a sentar na mesa junto com o investidor do negócio, quem está desenhando a parte financeira do projeto do data center. Isso acontece antes mesmo de se falar de prédio, antes mesmo de se falar na construção propriamente dita.
Potência – No projeto de data centers, tem havido uma busca crescente por eficiência energética e sustentabilidade. Qual a preocupação da Vertiv em atender esses requisitos com as suas soluções?
Francisco Degelo – A Vertiv sempre integrou os elementos de sustentabilidade e de eficiência energética nas suas soluções. É uma questão primordial do nosso negócio. Essa lógica faz parte tanto do plano econômico quanto do plano de habilitação de novos projetos de data centers. A eficiência energética é parte de nosso DNA desde sempre. Cada quilowatt de energia que eu deixo de consumir significa uma redução expressiva do custo operacional do site. Esse fator está diretamente ligado à rentabilidade do projeto. A intensidade de consumo energético dos novos projetos, principalmente de IA mas também pensando na disponibilidade de energia elétrica em geral, faz com que a busca por eficiência tenha um impacto ainda mais forte sobre a questão do custo operacional, a questão da quantidade de trabalho que eu posso fazer com uma certa quantidade de recursos disponíveis. Hoje eu tenho de pensar em quanto trabalho eu posso fazer pensando na finitude da quantidade de energia elétrica disponível no site. Ou seja, quanto trabalho eu posso realizar com uma certa quantidade de energia disponível. Mais eficiência significa menos energia elétrica sendo gasta com a infraestrutura do data center e mais energia elétrica sendo gasta com processamento de dados (equipamentos de TI). Em outras palavras, com a mesma quantidade de energia eu faço mais trabalho e mais trabalho significa mais rentabilidade, significa melhor uso da energia. Isso para mim é a essência do conceito de sustentabilidade. Eu executo mais trabalho com, proporcionalmente, menos recursos. Outro elemento crítico nesse tópico é que o mercado de data centers não admite mais a execução de trabalho de processamento de dados a qualquer custo. E quando eu falo custo eu não falo só de dinheiro. Eu falo de custo ambiental e de custo social agregados, os pilares da administração alinhada às normas ESG. Diante disso, a atratividade do negócio do data center para o investidor está ligada ao impacto ESG dessa empreitada. O Brasil vem criando políticas públicas voltadas ao fomento dessa indústria que exigem, por exemplo, que novos projetos sejam baseados em contratação de energia de fontes 100% renováveis. Isso já é uma realidade no Brasil – há alguns anos os data centers compram contratos de fontes renováveis para a manutenção das suas operações. Vale destacar, ainda, que historicamente os data centers, no Brasil, também fazem climatização do ambiente com circuitos secos. Ao contrário de outros países, nós não usamos consumo de água para eliminação de calor. Nós usamos circuitos de água fechados onde a água circula por tubulações fechadas sem que perdas significativas ocorram. Contamos com sistemas de climatização que não exigem o consumo de água, evitando a competição por esse recurso com as comunidades onde os data centers estão instalados. Sustentabilidade e eficiência andam de mãos dadas e são uma constante do mercado de data centers já há alguns anos. O que eu vejo o mercado exigindo, hoje, é um reforço, é um avanço adicional na cultura digital. Deixar para trás definitivamente hábitos que existem há tempos, não servem mais, mas que viraram uma cultura de mercado. Essa transformação está acontecendo aqui e agora.
