Inovação e seus conceitos

SAMUEL FELICIO – Mentoria & Consultoria Em Transformação Digital

Se há uma coisa abstrata, certamente é a discussão entre o velho e o novo. O novo será velho amanhã, enquanto que o velho foi o novo de ontem. O ponto central é compreender o tempo do agora e, neste particular, existem somente três tipos de pessoas: as que entendem, as que resistem e as que nem sabem o que está acontecendo.

A partir desta edição, traremos mensalmente tópicos relevantes sobre Transformação Digital, a fim de que façamos uma reflexão profunda sobre os desafios trazidos pela chamada economia 4.0, os quais estão afetando, antes de tudo, as pessoas, nossos meios de produção, os produtos e serviços oferecidos ao público em geral.

Neste mês vamos falar sobre Inovação! A definição da palavra Inovação, do original latino innovatio, trata de uma ideia, método ou objeto que é criado e que não pode ser reconhecido pelos padrões anteriores. Exemplificando, seria o mesmo que tentar contar as horas pelo posicionamento do Sol ao invés de usar o relógio de pulso, ou acender a churrasqueira friccionando pedras. Ambos os processos têm seu valor, provaram serem válidos para que nossa sociedade chegasse até onde chegou e possuem um maior ou menor grau de eficiência.

A questão é que à medida em que vamos adotando novos padrões, os anteriores passam a não ser mais facilmente identificados e as novas gerações passam a não mais os reconhecerem como sendo algo útil ou eficaz. Não são poucos os exemplos do nosso tempo. Quantos de nós já não viram crianças de 2 ou 3 anos fazendo movimentos frenéticos com suas mãos tentando aumentar a imagem fotográfica de revistas ou livros infantis, simulando o que hoje fazemos com celulares e tabletes? Ou mesmo pessoas de mais idade enfrentando dificuldades com telas, senhas ou preenchimento de códigos que são solicitados para quase todas as atividades do cotidiano?

Esse pequeno intervalo de tempo para que uma ação seja integralmente ou homogeneamente concluída e entendida por todos (lag, em inglês) poderá ser fundamental para determinar quais empresas ou pessoas estarão liderando a economia do século XXI. A velocidade na adoção de novos padrões mais do que “modernizar” nosso modus-operandi estará reescrevendo-o totalmente. Resistir a este fenômeno seria o mesmo que resistir à flecha lançada por discordar do arco que a lançou. E o arco do contexto é o que chamamos de VUCA: Vulnerabilidade, Incerteza (do inglês Uncertainty), Complexidade e Ambiguidade.

Ao contrário do que vivemos após a Revolução Industrial, quando as pessoas eram vistas como mão-de-obra para as fábricas ou para os exércitos, e com base nessa condição, tentava-se prever todos os eventos a fim de estruturar cada passo e planejar meticulosamente cada resultado, no mundo digital, a sociedade é vulnerável na medida em que está mais exposta às variáveis antes desconhecidas e hoje apresentadas pela profusão de dados. Isso gera cada vez mais incerteza, pois adicionamos cada vez mais dados no processo decisório e não mais suposições, tradições ou feelings, tornando complexas e ambíguas as relações entre os diferentes atores deste ecossistema.

Segundo fontes especializadas, produzimos 2.5 quintilhões de bites em dados/dia em 2018. Em pouco mais de 7 anos, passaremos a produzir 10 vezes mais quando teremos mais de 50 bilhões de dispositivos conectados na Internet das Coisas (IoT). Hoje, uma mesma empresa pode ocupar ao mesmo tempo a posição de cliente, fornecedor, parceiro ou competidor de outra empresa dependendo do ponto de vista, ficando muito difícil delimitar as fronteiras de um ou outro papel.

O mesmo ocorre com os consumidores, que ao mesmo tempo por meio de “comunidades” podem ser a principal fonte de consulta para aperfeiçoamento dos produtos e serviços por eles mesmos consumidos. Como indivíduos queremos decisões cada vez mais instantâneas, precisas, e assim não podemos ficar a mercê de desenvolvimentos longos que ao final não atinjam plenamente os objetivos traçados no projeto. As pessoas querem ser reconhecidas em suas mais diversas identidades, e para tal, não se satisfazem em fazerem parte de uma “média de comportamento”, exigindo produtos especificamente desenhados para elas.

Investidores animados pelos ganhos exponenciais, promovidos pelas techcompanies, pressionam suas organizações a fim de reduzir o staff e desmaterializar seus ativos e produtos buscando um engajamento total de seus consumidores. Tal engajamento pode garantir fidelidade e margens de lucro cada vez melhores por apoiarem propósitos defendidos pelos mesmos consumidores.

Isso tudo sem falar em automação de processos mecânicos e lógicos que tendem a reduzir de maneira expressiva o número de funções intermediárias através de braços e pernas robóticas, e velocidade de raciocínio da Inteligência Artificial. Esse cenário, muitas vezes representado como distópico e soturno, poderá ao contrário trazer a possibilidade de novas empresas substituírem por completo velhos modelos de negócios muito maduros que experimentam crescimento orgânico vegetativo ou margem de lucros baixa ou decrescente.

Problemas da sociedade que considerávamos intransponíveis na área de saúde, segurança ou meio ambiente podem ser equacionados ou definitivamente solucionados pelo fato de serem enxergados com os óculos dos novos padrões. Não me cabe aqui esconder os tremendos desafios que deveremos enfrentar até que o propósito geral de vivermos em uma sociedade mais longeva, saudável, justa e segura ocorra, mas provocar os leitores a iniciarem o movimento.

Uma longa jornada começa com os primeiros passos. Inovação é uma jornada e não um destino. Ela começa nas mentes e ideais de pessoas que se movimentam usando os “novos padrões” para transformarem a realidade a sua volta. Sem uma mentalidade inovadora, nenhuma empresa, projeto ou causa poderão ser bem-sucedidas neste nosso tempo. No momento presente, tecnologias não são mais consideradas ferramentas, antes, são uma extensão das capacidades humanas.

Assim, o simples uso de todo o vasto leque de dispositivos, redes sociais, realidades extensivas, entre outras novidades disponíveis como ferramenta, não fará a diferença almejada se não for visto como uma forma de pensar um novo modelo mental. A síndrome do sapo na água quente faz com que muitos tentem se manter onde estão resistindo o quanto podem até que a água entre em ebulição e lhes seja impossível qualquer movimento. Outros, como dinossauros, se mantêm presos às suas rotinas diárias sem perceberem o perigo externo que se aproxima para destruir por completo seu habitat, cadeia alimentar, etc.

Entretanto, existem aqueles que ao invés de resistir ou ignorar usam as forças aparentemente contrárias para desequilibrar oponentes e como em um golpe de Hapikidô, vencem suas lutas do cotidiano usando o novo. Se há uma coisa abstrata, certamente é a discussão entre o velho e o novo. O novo será velho amanhã, enquanto que o velho foi o novo de ontem. O ponto central é compreender o tempo do agora. E nesse particular, existem somente três tipos de pessoas: as que entendem, as que resistem e as que nem sabem o que está acontecendo.

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