Cuidado para não levar gato por lebre

Como em todo e qualquer segmento, o de fios e cabos elétricos também enfrenta as suas mazelas. A mais preocupante: a utilização de menor quantidade de cobre nos produtos.

Ei você! Temos uma pergunta importante para lhe fazer. Por acaso, costuma prestar atenção aos selos que garantem a qualidade do cobre contido nos condutores elétricos que compra para realizar o seu trabalho? Se a resposta for positiva, parabéns, você está no caminho certo. Mas se for negativa, ahhhh, isso não é nada bom. Mas tudo bem, o que pretendemos aqui é justamente esclarecer tudo o que for necessário para que esse equívoco não seja mais cometido.

Como em todo e qualquer segmento, o de fios e cabos elétricos também enfrenta as suas mazelas e, entre as mais preocupantes, estão a utilização de menor quantidade de cobre nesses produtos, ou cobre com qualidade inferior ao exigido pelas normas. Isso porque as consequências resultantes dessa prática podem ser as mais graves e desastrosas possíveis, do tipo “o crime não compensa”.

A utilização de cobre de qualidade duvidosa nos fios e cabos destinados a instalações elétricas de baixa tensão reduz não só a produtividade do fabricante, aumentando seus custos, mas também a reputação do eletricista em função dos problemas que consequentemente aparecerão. Aumento do consumo de energia elétrica, eventuais curtos-circuitos e até mesmo incêndios em casos extremos devem ser destacados.

Indiscutivelmente, a maior quantidade, neste caso, se traduz em qualidade. Utilizar menos cobre do que o especificado reduz a capacidade de transmitir a corrente do condutor e aumenta a queda de tensão no circuito, comprometendo o desempenho da instalação elétrica, aumentando a temperatura de operação nos fios e cabos e gerando perdas potenciais.

Eventualmente, ocorrem casos em que os fios de cobre apresentam dureza mais alta porque não foram recozidos. Esse tipo de problema pode ser gerado por cobre não conforme ou, na maioria das vezes, por complicações no processo do fabricante. O grau de pureza do cobre destinado para fins elétricos é de 99,9% de cobre.

EFICIÊNCIA
Utilizar menos cobre do que o especificado reduz a capacidade de transmitir a corrente do condutor e aumenta a queda de tensão no circuito.
Menos perda, mais segurança

Informação da mais relevante e que deve ser levada muito a sério é que o uso de fiação de má qualidade e de instalações elétricas inadequadas, segundo o Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, estão entre as principais causas de curtos-circuitos e incêndios em edifícios residenciais e comerciais no País. Por isso, não caia na tentação do barato…pode sair caro demais.

PERIGO
As consequências do uso de condutores em não conformidade podem ser graves, inclusive provocando eventuais incêndios.

De acordo com Maurício Sant´ana (foto), secretário executivo da Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos (Qualifio), a boa notícia é que a tecnologia veio, uma vez mais, somar, também no segmento de fios e cabos elétricos. Ele afirma que, atualmente, o cobre utilizado para fabricação de cabos flexíveis para instalações elétricas de baixa tensão é de boa qualidade devido à necessidade de ser trefilado até diâmetros entre 0,20 e 0,40 mm. Com o advento das máquinas múltiplas para trefilação ficou difícil lançar mão do metal com qualidade duvidosa.

“No passado o cobre nem sempre tinha boa qualidade, podendo ter contaminações de materiais durante seu refino, ocasionando dificuldades na trefilação e baixa condutibilidade do produto final. Mas as máquinas eram mais lentas e permitiam o uso de cobre inferior, evidentemente com baixa produtividade. Havia, ainda, o risco de o produto não estar de acordo com as especificações. Nos dias de hoje, entretanto, com a necessidade de alta produtividade, a qualidade do cobre necessariamente deve ser boa, com trefilabilidade eficiente a altas velocidades para que o produto final seja competitivo. No futuro, a tendência é de que os produtores só consigam utilizar cobre de alta qualidade”, ressalta Sant´ana.

Para Hilton Moreno, sócio-diretor do Grupo HMNews, que publica a Revista Potência e a Revista da Instalação, o avanço da certificação compulsória, bem como as auditorias realizadas pela Qualifio e pelo Inmetro, também vem proporcionando positiva evolução na qualidade desses produtos. Mas parte do mercado é problemática e engloba fabricantes não muito confiáveis e produtos que, mesmo com os certificados irregulares, continuam a ser comercializados por preços mais baixos, acarretando concorrência desleal.

Para fugir de problemas com a qualidade do condutor elétrico, a recomendação de Hilton é consultar os sites da Qualifio e do Inmetro, que disponibilizam a lista de empresas certificadas. Vale lembrar, no entanto, que a certificação compulsória não garante qualidade similar aos produtos: “A certificação garante que os produtos atendam minimamente aos requisitos exigidos pelas normas para que possam ser comercializados, mas não que todos estejam no mesmo nível de excelência. Alguns vão além, o que justifica as diferenças de preços”.

Fique de olho!

Estar sempre atento às normas e às regras de seu segmento de atuação é condição para desempenhar um excelente trabalho. Para auxiliá-lo nessa empreitada, o Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais Não-Ferrosos (Sindicel) aborda a seguir várias dicas indispensáveis e que auxiliarão sobremaneira a identificar os fios e cabos elétricos para instalação predial não conformes com as regras brasileiras estabelecidas.

Para começar é bom saber que todo fabricante é responsável pela certificação de fios e cabos elétricos para instalação predial pelo sistema Inmetro. Do mesmo modo, todo revendedor, lojista ou distribuidor deve responder pela comercialização apenas de produtos certificados. A presença do selo do instituto nas embalagens dos produtos (com a respectiva identificação dos Organismos Certificadores de Produtos – OCPs) é a garantia que eles mantêm as características especificadas nas normas ABNT NBR vigentes. A seguir três importantes alertas:

Primeiro alerta

➧ Fios e cabos para instalação predial, cuja embalagem não leva o selo do Inmetro e/ou o nome e CNPJ do fabricante não podem ser comercializados;

➧ Fios e cabos com o selo do Inmetro “falsificado” na embalagem e sem nome e/ ou CNPJ do fabricante também é “falso”;

➧ Produtos com selo Inmetro, nome e/ou CNPJ do fabricante na embalagem, mas fora das normas ABNT, estão enquadrados na principal não conformidade: a menor quantidade do metal cobre no fio condutor.

Atenção: no site do Inmetro, no endereço www.inmetro.gov.br, constam as empresas/marcas que estão certificadas. Basta uma consulta!

Segundo alerta

➧ A menor quantidade do cobre nos condutores é a principal não conformidade no universo dos fios e cabos elétricos, uma vez que o metal é o responsável por conduzir a eletricidade. Empresas que se valem desse artifício estão cometendo crime grave por colocar a instalação elétrica em perigo;

➧ Fique atento também à isolação dos fios e cabos, pois isso pode indicar menor utilização de cobre. São produtos não conformes, que usam PVC de má qualidade, que propagam as chamas e têm espessura mais grossa para compensar o diâmetro final;

➧ Outra não conformidade comum é o comprimento dos rolos em cada embalagem, que podem ser menores que os 100 metros padrão para a maioria das seções nominais (1,5; 2,5; 4 e 6 mm2 );

➧ Para identificar fios e cabos elétricos com menor quantidade de cobre verifique o diâmetro externo menor (mais fino) quando comparado com outros produtos dentro das especificações. Outra dica é avaliar o peso característico de um rolo de 100 m, embalagem padrão para a maioria das seções nominais;

Atenção: cobertura/isolação mais grosso pode ser usado para compensar a menor quantidade de cobre. Percebendo isso, desconfie e procure informações sobre o produto.

Terceiro alerta

O Inmetro, com o objetivo de combater a concorrência desleal, trabalha com metodologia de fiscalização técnica, que envolve medição da resistência elétrica dos produtos, in loco, e apreensão cautelar para coibir os produtos não conformes.

Atenção e punição

Em função da boa qualidade do cobre alguns fabricantes – aproximadamente 50% pelos cálculos de Sant´ana – utilizam-se da artimanha de diminuir a quantidade de fios ou até manter, mas com diâmetros menores. Em ambos os casos, não respeitando a resistência máxima especificada em normas, os materiais são colocados no mercado com vantagens competitivas, devido à menor quantidade de cobre, podendo ser comercializado com preço inferior, mas com todos os danos já apontados.

Maurício Sant´ana | Qualifio
“Com a necessidade de alta produtividade, a qualidade do cobre deve ser boa, com trefilabilidade eficiente a altas velocidades para que o produto final seja competitivo”.

Mesmo que a certificação dos fabricantes e os procedimentos previstos pelo Inmetro, e adotados pelos Organismos Certificadores de Produtos (OCPs), estejam corretos, existem os mal-intencionados que “preparam” a fábrica para os dias de auditoria e conseguem aprovação. Acontece que, após a certificação, voltam a fabricar produtos de má qualidade, principalmente quanto à alta resistência elétrica. Infelizmente, esse lixo é colocado no mercado.

É neste momento que entra em ação o trabalho da Qualifio, monitorando a qualidade dos fios e cabos elétricos comercializados no mercado brasileiro. Sem aviso prévio, vai ao comércio, nos mais diversos pontos do País, e realiza a coleta de materiais com a finalidade de detectar atos fraudulentos. Tal ação é amparada pela Portaria do Inmetro de nº 640/2012, que prevê que o OCP reúna as amostras no mercado, tentando evitar manuseio por parte dos fabricantes de má índole.

Após a coleta, a Qualifio prepara um dossiê de cada amostra recolhida e envia para laboratórios credenciados pelo Inmetro para realização de ensaios básicos. Os resultados em desacordo com as normas vigentes são informados ao instituto, ao OCP responsável, ao fabricante, ao lojista e aos IPEMs (Instituto de Pesos e Medidas) dos estados nos quais o produto foi adquirido por meio de denúncias formais.

Além da identificação do produto, Sant´ana reforça a importância de verificar a resistência elétrica do cabo. Este requisito pode ser medido com a ajuda de um ôhmimetro e confrontado com as tabelas das normas ABNT. Uma regra prática é a de contar o número de fios e medir os diâmetros dos mesmos. Com estas informações pode-se calcular a seção do cabo e indiretamente verificar se atende às normas. A seção encontrada poderá estar inferior à seção nominal em até 12%, o que provavelmente atenderá ao especificado. Esta regra não garante que o produto esteja perfeito, salienta o secretário executivo, mas serve para alertar uma possível fraude quando os valores encontrados são muito inferiores ao valor nominal da seção descrita.

Riscos e prejuízos
  • Cliente insatisfeito e em risco devido aos problemas da instalação elétrica
  • Custo pela troca do produto e reinstalação de outro que atenda às normas
  • Penalidades jurídicas e legais por instalar produto não conforme ou sem a certificação compulsória do sistema Inmetro
  • Instalações elétricas com risco de curto-circuito e até incêndios
  • Perda de patrimônio;
  • Riscos à vida e à saúde das pessoas
  • Aumento de consumo de energia elétrica pelo aquecimento dos condutores, causado pela menor quantidade do cobre

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