Mão de obra: primeiros passos

Processo de certificação de eletricistas tem início no Brasil, mas procura por parte dos profissionais ainda é pequena.

Certificação é um mecanismo adotado pelos mais diversos setores da economia para atestar, com base em normas técnicas, a qualidade de produtos, serviços, processos e sistemas de gestão. Nos últimos anos, tem crescido o debate sobre a importância da certificação também de pessoal, a fim de avaliar as habilidades e os conhecimentos dos profissionais que atuam no mercado. Na área da Construção Civil, esse reconhecimento já pode ser buscado pelos eletricistas, mas a procura ainda é pequena.

A certificação nada mais é do que um processo de avaliação destinado a fazer o reconhecimento formal das competências que uma pessoa possui, independentemente da forma como essa bagagem foi adquirida. Trata-se de uma declaração – dada por uma entidade reconhecida – de que uma pessoa possui a qualificação necessária para exercer uma profissão em um ramo de atividade.

Tradicional formador de mão de obra especializada para a indústria, o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) está habilitado a promover também a certificação do chamado Eletricista instalador predial de baixa tensão. O reconhecimento é feito por meio do Sistema Senai de Certificação de Pessoas (SSCP), que atua como um Organismo de Certificação de Pessoas (OPC 0011), em conformidade com a norma ABNT NBR ISO/IEC 17024:2013.

O processo de certificação está aberto a qualquer profissional da área que queira atestar suas competências profissionais, independentemente de já ter feito ou não curso na área. Para buscar o reconhecimento o candidato precisa se inscrever, entregar todos os documentos exigidos e pagar a taxa da prova. No momento, este valor é de R$ 300,00. Na sequência será feito o agendamento da prova para avaliação do candidato.

A avaliação consiste em um exame prático que verifica o desempenho profissional do candidato em situação de trabalho. Quando o candidato realiza a prova, que dura 8 horas, é medido criteriosamente tanto o seu desempenho técnico quanto de organização, planejamento e segurança no trabalho. Assim é possível saber se ele tem as competências de um eletricista de acordo com o Perfil Profissional Nacional (veja quadro na página 26). “A única impossibilidade que temos de medir é o seu caráter. Ele prova que sabe fazer, mas vai depender de querer fazer bem feito, como nos mostrou que sabe”, observa Vania Aparecida Caneschi (foto), coordenadora de Atividades Técnicas da Escola Senai ‘Orlando Laviero Ferraiuolo’. A unidade, que fica no bairro do Tatuapé, em São Paulo (SP), é um dos Centros de Exames para Certificação (CEC) de eletricistas mantidos pelo Senai.

Sendo aprovado no exame o candidato receberá um certificado e carteirinha. O reconhecimento é válido por cinco anos, desde que trinta meses após receber o certificado, o candidato apresente comprovante de atuação na área. “Após os cinco anos, o profissional deve fazer novamente a prova, como garantia de que continua sabendo realizar o processo e que está acompanhando a evolução da profissão”, informa Vania. Será possível comprovar se a carteirinha do profissional é válida ou não através de consulta ao site do Sistema Senai de Certificação de Pessoas.

Além de constituir uma vantagem competitiva importante para o próprio eletricista, a certificação de pessoas proporciona uma série de benefícios também aos demais atores da sociedade, incluindo as empresas contratantes e os usuários finais das instalações elétricas. Para começar, a certificação atesta que o trabalhador teve interesse de se manter atualizado com relação às técnicas de trabalho e ao uso de materiais, máquinas, equipamentos, instrumentos e ferramentas. “O sistema agrega um diferencial para o profissional no mercado de trabalho, auxiliando na manutenção da sua empregabilidade”, comenta a porta-voz do Senai.

Para as empresas e prestadoras de serviços, o trabalho de um eletricista certificado pode ajudar a reduzir os custos operacionais de tempo de atendimento aos clientes internos e externos e racionalizar o trabalho, diminuindo assim o desperdício de materiais e a geração de resíduos. Outros benefícios possíveis são a redução de retrabalho – que muitas vezes decorre de imperícia técnica – e diminuição dos riscos de acidentes do trabalho.

As próprias indústrias também tendem a ser beneficiadas com a medida. Afinal, não são poucos os casos em que os materiais elétricos são utilizados incorretamente, gerando repercussão negativa que acaba se voltando contra a marca. “A certificação do eletricista favorece que os produtos sejam utilizados de acordo com o estabelecido pelos fabricantes e pelas normas técnicas”, diz Vania.

Patamares distintos

Até por ser um processo relativamente novo, a certificação de eletricistas ainda tem sido pouco procurada no Brasil. Curiosamente, esse cenário contrasta com o grande interesse das pessoas que querem se qualificar para atuar na área.

Somente no Senai do Tatuapé, na capital paulista, são qualificados em torno de 800 eletricistas todo ano. Conforme conta Vania, a procura por esse tipo de formação segue em níveis elevados: “Na nossa unidade, os cursos de eletricista têm suas vagas preenchidas no mesmo dia em que abrimos as inscrições, e sempre resta uma lista de interessados com cerca de 60 pessoas”.

Já o interesse dos eletricistas em buscar a certificação tem sido muito pequeno. Até o momento, em todo o Estado de São Paulo, existem apenas nove profissionais certificados pelo Senai. Pelo que se sabe, nenhum segmento do mercado estaria estabelecendo a certificação como condição para a contratação de eletricistas – até porque ela é voluntária. Mas Vania não descarta que isso venha a acontecer no futuro. “É possível, sim, desde que se comece um trabalho de ‘formiguinha’ ou de uma política que queira elevar o nível do setor”, opina.

Enquanto isso, no Chile, já há algum tempo existem mecanismos para controlar a qualidade do trabalho dos eletricistas. Naquele país, existe uma recomendação da Superintendência de Electricidad y Combustibles (SEC) para que toda instalação, manutenção e reparação de instalações elétricas sejam feitas apenas por instaladores por ela autorizados.

De acordo com o tipo de licença que é solicitada ao referido órgão federal, é exigida do profissional a formação de engenheiro ou técnico ou que se tenha algum título na especialidade de eletricidade. Mesmo quem não teve acesso aos estudos acadêmicos ainda pode requisitar sua licença, se comprovar que tem grande experiência nessa atividade.

Se o instalador não desempenhar corretamente sua função, a única forma do usuário ou da própria SEC fiscalizar o trabalho depende de que ele esteja registrado e autorizado; do contrário, não se pode fazer valer nenhuma garantia legal e, dificilmente, civil ou penal, em caso de acidente. Como resultado do sistema implantado, o Chile conta com milhares de instaladores elétricos devidamente autorizados.

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