O Brasil no topo do mundo

Para Alexandre Moana, presidente da Abesco, país pode ser um dos grandes geradores de inteligência na utilização de energia, seja ela térmica ou elétrica.

Fazer mais, com menos energia. Esse é um dos preceitos básicos que norteiam o trabalho de um grande número de profissionais, empresas e organizações que se dedicam diariamente a promover e difundir ações que visam melhorar o uso das fontes de energia.

É o caso da Abesco (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia). Fundada em 1997, essa entidade sem fins lucrativos representa oficialmente o segmento de Eficiência Energética brasileiro.

Uma das ações de grande alcance da entidade consiste na promoção do Congresso Brasileiro de Eficiência Energética (COBEE), que acaba de ter sua 16ª edição realizada no mês de agosto, em São Paulo.

Os esforços do mercado no sentido de tornar equipamentos, processos e instalações mais eficientes, do ponto de vista energético, precisam ser reconhecidos. Entretanto, está claro que a cultura em torno da Eficiência Energética ainda precisa evoluir sob vários aspectos, conforme observa nosso entrevistado desta edição, Alexandre Moana (foto), presidente da Abesco. “Notamos que o conceito macro deste assunto está sendo bem entendido, mas o conceito micro (específico), nem tanto. Ele precisa ser mais divulgado”, destaca.

Além de comentar sobre o estágio do País nesse processo, o presidente da Abesco revela suas impressões sobre a norma ISO 50001:2011 – Sistema de Gestão de Energia e fala também sobre a relação entre Eficiência Energética e tendências tecnológicas como digitalização e veículos elétricos. Confira a seguir a entrevista com Alexandre Moana.

Alexandre Moana
Presidente da Abesco
  • Como está, no Brasil, o nível de consciência do mercado profissional a respeito da questão da Eficiência Energética?

O que a Abesco vê é que hoje a Eficiência Energética é um assunto muito mais destacado do que décadas atrás, ou seja, hoje, mais pessoas sabem o que é Eficiência Energética e valorizam muito esta abordagem. O que existe ainda, e que precisa de avanços, é que algumas soluções que talvez não sejam Eficiência Energética em si – mas sim uma troca da matriz, por exemplo -, ainda são confundidas com Eficiência Energética. Não é porque você colocou um gerador eólico, uma placa solar ou um tipo de geração distribuída na sua casa que você promoveu Eficiência Energética. Neste caso, o que foi feito, talvez, tenha sido uma eficiência ambiental pelo uso da energia, mas a Eficiência Energética, por definição, é algo diferente. É utilizar a energia que vem dessas fontes de forma otimizada. Então, notamos que o conceito macro deste assunto está sendo bem entendido, mas o conceito micro (específico), nem tanto. Ele precisa ser mais divulgado. Mas, resumidamente, hoje é muito melhor o panorama da Eficiência Energética do que era há vinte anos.

  • Onde essa consciência é mais forte: na indústria, no comércio ou na área de serviços?

Acreditamos que esta consciência é sempre mais forte na indústria. Porque é o maior setor da economia, em relação ao consumo de energia nacional. Então, a gente sempre observou mais por parte da indústria. Os grandes consumidores ou os eletro-intensivos, além de acompanharem de perto a relação energia/ produto, a quantidade de energia utilizada no produto, eles têm historicamente maior preocupação e departamentos com equipes energéticas muito mais atuantes. Esta maior consciência acontece também porque as empresas de maior porte recebem mais investimento do que a menor indústria. Então, a maior indústria tende a ser mais eficiente.

  • A indústria já consegue lidar adequadamente com a questão da modernização do parque de motores elétricos, que reconhecidamente respondem por altos gastos de eletricidade?

Historicamente, os motores são grandes consumidores industriais, mas temos de lembrar que indústrias não são apenas consumidoras de eletricidade na matriz. Muita atividade na indústria é térmica. Então, o consumo no que se refere ao que é térmico, é sempre muito bem observado. A indústria requer grandes melhorias de eficientização ainda, mesmo ela sendo a maior consciência energética.

  • Na área de iluminação, tanto na esfera pública quanto privada, como tem caminhado o processo de substituição de tecnologias mais antigas por outras mais eficientes, como o LED?

O que acontece é que no uso final, iluminação, uma característica diferente apareceu em relação aos outros. A mudança tecnológica foi violenta demais. A iluminação, em pouco tempo, saiu do aspecto incandescente para o LED, com a redução de consumo de mais de 90%. Muitas vezes, então, o setor de iluminação sofreu uma mudança brutal de tecnologia. Ele tem passado, por conta disso, por um processo de retrofit. Porém, no geral, o processo de substituição tem sido muito mais lento do que se imaginava. Quando ele começou a desencadear, estávamos entre os anos de 2008 e 2009. Nesses dez anos, apesar de ter havido esse retrofit, acreditamos que foi muito mais lento que do que poderia ter sido. A iluminação pública, por exemplo, somente agora tem ganhado corpo mais acelerado da substituição. Essa substituição é completamente inevitável. Porém, ela só foi mais lenta do que nós imaginávamos.

  • Que outras ações têm sido adotadas pelo mercado, no sentido de buscar maior nível de Eficiência Energética?

Uma das poucas coisas que existe com possibilidade de encaixar o Brasil na competição mundial é a inserção de inteligência. A inteligência pode vir de um software ou de investimentos em metodologias para executar a Eficiência Energética, por exemplo. Mas, a resposta para isso é a inserção da inteligência nesse processo de eficientização, já que o Brasil tem toda capacidade de estar na ponta do mundo. O nosso País pode, por exemplo, não ter mais condição de ser competidor na fabricação de células fotovoltaicas ou na fabricação de LEDs, por ter perdido a chance de ter uma posição dessa, mas ele pode ser um dos grandes geradores de inteligência na utilização de energia, seja ela térmica ou elétrica.

  • Que benefícios ou outros tipos de influência a norma ISO 50001 tem exercido no mercado?

A norma ISO 50001 é um grande impulsionador na Eficiência Energética porque no seu texto traz a obrigatoriedade da atuação em Eficiência Energética para que o interessado possa ser qualificado, dentro dos padrões da norma. Acontece que essa norma ainda é pouco acessível para a maioria dos usuários. Ela impulsiona, mas não impulsiona com grande capilaridade, pois são padrões difíceis para os consumidores em geral se adequarem a ponto de se qualificarem.

  • Quais quesitos deve-se cumprir para atender essa norma? O mercado tem tido dificuldades quanto a isso, então?

Há bastante exigências que a norma obriga o cumprimento quando a empresa se registra na ISO, mas o padrão é esse. Porém, no nosso entendimento, há um grau de exigência muito grande de outros fatores antes de exigirem a aplicação da Eficiência Energética. São muitas obrigações relacionadas à aquisição, documentação, registros, segurança, entre outros, antes da abordagem em Eficiência Energética. Com isso, acreditamos que não serão tantas empresas assim que vão ser qualificadas nesta ISO.

  • Existem linhas de financiamento destinadas à promoção da Eficiência Energética no Brasil em quantidade e condições suficientes?

Perto do potencial que a Eficiência Energética tem no Brasil, não existe financiamento adequado e acessível. Esse é o calcanhar de Aquiles para a Eficiência Energética no nosso País, mas acreditamos que isso deve mudar, principalmente pela posição atual de redução da Selic e redução de oportunidades para o investidor ter um retorno do seu capital. A Eficiência Energética tem sido muito beneficiada com essa mudança do mercado financeiro. Então, talvez tenha chegado a hora na qual o alcance é mais importante do que as vantagens para o rentista como eles tinham no mercado.

  • As indústrias e as concessionárias de energia estão caminhando rumo à digitalização dos negócios. A Eficiência Energética se beneficiará desse processo ou na verdade ela poderia ser considerada uma das pré-condições para a modernização das companhias?

A Eficiência Energética vai ser beneficiada com este processo, porque isso faz parte da inserção de inteligência no sistema. Com a inserção da inteligência no processo, qualquer item de ineficiência vai começar a ser identificado e quantificado.

  • Como o advento dos veículos elétricos vai influenciar no uso e na relação que as pessoas têm com a energia elétrica? Um possível aumento de consumo de eletricidade por parte da sociedade não iria se chocar contra os princípios da busca por maior Eficiência Energética?

A pergunta é interessante porque isso é importante no quesito elétrico. Isso tudo influencia na questão elétrica. Mas quem disse que torna mais eficiente o uso da energia o fato de usar um veículo elétrico? Esse é um questionamento importante, pois nem sempre o uso de outra matriz torna o veículo mais eficiente. Atualmente, um carro a álcool é muito mais benéfico ao meio ambiente e mais eficiente do que um carro elétrico silenciado no Sistema Elétrico Nacional. A troca de matriz não significa necessariamente eficiência, e o carro elétrico é o grande exemplo disso. Esse é um estudo mais complexo e tem de ser observada toda a cadeia da produção e utilização de energia. Você pode dizer que beneficia uma cidade ou outra urbanizada, como São Paulo, onde a poluição deixa todo mundo doente. Isso você pode falar com certeza, agora, se ele é vantagem para a Eficiência Energética, é preciso um cálculo muito mais complexo e acreditamos que não seja a melhor solução no Brasil, que ainda conta com carros a álcool, por exemplo.

  • Com a geração distribuída de energia, qualquer consumidor poder gerar sua própria energia e diminuir seus custos com o insumo. O fato não pode gerar um ‘afrouxamento’ na preocupação com o desperdício de energia, uma vez que ele saberá que não terá mais o mesmo nível de compromisso mensal com a concessionária de energia?

Sem dúvida. Quando se tem um insumo que é barato, há menos impulso para conservar aquele insumo. Essa equação é verdadeira, sem dúvida nenhuma, sempre vai ser. Quando você tem um insumo mais barato, sua preocupação em eficientizar o insumo é também menor. São coisas de proporcionalidade inversa.

  • Considerando o tamanho do mercado brasileiro, é possível dizer que ainda há muito trabalho a ser feito, no que diz respeito à eficientização energética?

Vou aproveitar para complementar a penúltima pergunta. Da mesma forma que uma coisa barata impulsiona menos a vontade de eficientizar, toda essa mudança que é preciso ser realizada no mercado, talvez, seja o estabelecimento de níveis mínimos de ciência obrigatória. Assim, além de garantir que tudo fique mais eficiente, tornaremos o País mais competitivo pela redução de desperdício. Já que pode acontecer de o valor da energia ser mais barato em relação a outros produtos, um sistema que criasse a obrigatoriedade de Eficiência Energética lançaria o Brasil em outro patamar de condicionamento no tocante a esse setor. É uma solução importante que tende a vir com o tempo.

2 comentários em “O Brasil no topo do mundo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.