Uma questão de qualidade

Consumidor deve estar atento aos produtos que adquire, pois maus fabricantes estariam produzindo cabos desbitolados.

Os fios e cabos elétricos estão presentes em todo tipo de obra, o que cria boas perspectivas de crescimento nos negócios, por conta do expressivo número de novas edificações e reformas existentes no País. Entretanto, o mercado apresenta sérios problemas, como a baixa qualidade dos produtos fabricados por determinadas empresas.

Na opinião de Nelson Volyk (foto), gerente de Engenharia de Produto da SIL, de maneira geral, a qualidade dos fios e cabos elétricos brasileiros é indiscutível, pois produzimos com a mesma qualidade e tecnologia das grandes potências industriais do mundo.

O problema, observa ele, é a existência de maus fabricantes, que produzem cabos desbitolados e utilizam compostos isolantes de baixa qualidade, ou seja, inadequados para fins elétricos. De acordo com o especialista, a concorrência desleal é gerada por fabricantes que produzem fios e cabos elétricos com menos cobre que deveriam e se escondem atrás de um certificado do INMETRO. No mercado esses produtos são chamados de cabos desbitolados, onde o consumidor compra um produto, mas recebe outro por desconhecimento. “Por exemplo, um consumidor vai na loja e compra cabos flexíveis de 1,5 e 2,5 mm² de seção nominal, para fazer a sua instalação elétrica de iluminação e tomadas, conforme é a regra da norma brasileira de instalação elétrica. Mas, na prática o 1,5 mm² e o de 2,5 mm² possuem muito menos cobre do que deveriam e isso gera perdas elétricas na instalação, elevando a conta de energia e gerando o risco de curto-circuito, sem contar a redução da vida útil da instalação”, explica Volyk.

Os fabricantes de produto fora de norma conquistam, temporariamente, o mercado das indústrias sérias. Mas, como o consumidor terá problemas com essas instalações depois de um certo tempo, ele voltará à loja, pois a instalação elétrica não irá durar como deveria. “O problema será se o consumidor voltar a instalar esses produtos de baixa qualidade, por isso é necessário atuar para que o Brasil possua uma certificação compulsória séria desses produtos, impedindo que os fabricantes aventureiros e gananciosos enganem a população e possuam a mesma certificação dos bons fabricantes”, alerta Volyk.

Para Marcondes Silvestre Takeda (foto), gerente da engenharia de aplicação do Grupo Prysmian, o problema no Brasil atinge níveis alarmantes. Ele cita que de acordo com estimativas do Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais Não-Ferrosos do Estado de São Paulo (SINDICEL), cerca de 30% do volume total dos produtos deste segmento comercializados no Brasil estavam irregulares.

“São vários os problemas, a começar pela existência de produtos não certificados,  falta de informações ou informações não verídicas nas etiquetas de identificação dos produtos nas embalagens, isolantes dos cabos produzidos a partir de compostos de baixa qualidade, não atendendo requisitos específicos de inflamabilidade e/ou atoxidade e, o principal deles, cabos com resistência elétrica superior à permitida pela norma de fabricação, a qual está diretamente relacionada com a menor quantidade de cobre utilizada e ficando assim abaixo do que é necessário”, enumera Takeda.

Já a utilização de cobre de baixa qualidade aparece em um grau menor, uma vez que este tipo de material é de difícil processamento pelas trefilas multifilares de elevada velocidade no processo de fabricação dos condutores flexíveis, tecnicamente conhecidos como classe 4 ou 5, os quais são os tipos de condutores mais demandados neste segmento. “Ou seja, o ‘crime’ da utilização de cobre de baixa qualidade é mais difícil do que aquele da utilização de menor quantidade de cobre”, compara Takeda.

Conformidade em questão

Quais as principais características dos produtos em conformidade com a legislação? De acordo com Nelson Volyk, as características técnicas de cada tipo de condutor variam conforme sua aplicação e isso é definido na norma técnica do produto, que é uma norma da ABNT. O básico é o cobre, que deve seguir a norma NBR NM 280 “Condutores de cabos isolados”. Esta norma define a resistência elétrica do cabo para cada seção nominal, ou seja, para saber se a quantidade de cobre está correta ou não. Basta medir a resistência elétrica do cabo e verificar o valor especificado máximo na NBR NM 280. “O composto isolante é definido pela norma do produto, podendo possuir sua temperatura de operação de 70 ou 90 ºC, ser um composto de PVC, HEPR ou poliolefina, sendo que todas as especificações atendidas garantem um condutor elétrico com longa vida útil”, complementa Volyk.

Conforme esclarece Marcondes Silvestre Takeda, do Grupo Prysmian, um produto em conformidade com a legislação cumpre integralmente todos os requisitos das respectivas normas de construção, atendendo a todos os testes/ensaios nelas previstos. “A principal característica é que a resistência elétrica do condutor não ultrapassa o valor máximo estabelecido pela norma. Esta característica está diretamente relacionada com a quantidade e/ou qualidade do cobre contido no produto, mas infelizmente ela não possui uma identificação visual direta”, observa.

Por outro lado, que sinais podem indicar uma possível baixa qualidade nos fios e cabos elétricos? Segundo Nelson Volyk, primeiramente o preço, pois similar ao preço do combustível nos postos, preços muito abaixo dos praticados no mercado são para se desconfiar. “Aqui vale ressaltar que os cabos têm como principal insumo o cobre. O preço do cobre é dado em dólar, pela bolsa de valores de Londres. Uma dica importante é conferir a quantidade de cobre e a espessura de isolação. Compare, pois é normal o fabricante de um produto fora de norma reduzir o cobre e completar com PVC. Na maioria das vezes isso fica perceptível, principalmente para os instaladores que possuem experiência e uma expectativa visual do produto”, comenta.

O peso também é um fator importante, mas é necessário comparar com um fabricante idôneo. “Um detalhe com relação ao peso é a questão de já haver no mercado produtos em alumínio cobreado, que é proibido para os condutores elétricos de baixa tensão. O alumínio cobreado é bem mais leve que o cobre maciço e conduz menos energia”, destaca Nelson Volyk.

Marcondes Silvestre Takeda menciona outros sinais que podem indicar uma possível baixa qualidade dos fios e cabos elétricos.

A começar pela etiqueta de identificação na embalagem do produto (rolo ou caixa) se constatar ausência: do CNPJ do fabricante; do selo do INMETRO; do número de registro no selo do INMETRO e da indicação da massa bruta (kg) do produto.

Para uma mesma seção (bitola), desconfie se a massa bruta do produto for inferior à massa indicada pelos fabricantes tradicionais de marcas reconhecidas. Por exemplo, para o cabo flexível 450/750V 2,5 mm2 isolado em PVC, produto mais representativo deste segmento, se a massa bruta for inferior a 2,9 kg nas embalagens de 100m, há um forte indício da irregularidade conhecida no mercado como cabo ‘desbitolado’.

“Vista transversalmente, se a parte metálica que é formada pelos fios de cobre encordoados está descentralizada e/ou com os fios “espalhados” no interior do cabo, também é um indício. Em casos extremos, pode haver parte metálica visível (isolação rompida)”, detalha Takeda.

Outra forma de identificar é quando observamos que a parte metálica é mais “fina” quando comparada com a parte metálica de um cabo de mesma seção (bitola) de marca reconhecida/tradicional.

Uma vez decapada a isolação, desconfie do cabo se a parte metálica dele ser capaz de entrar em um conector tubular de medida inferior – por exemplo, a parte metálica de um cabo vendido como 2,5 mm2 conseguir entrar em um conector tubular de 1,5 mm2.

“Um erro muito comum é fazer a comparação dos diâmetros entre cabos completos, ou seja, considerando também a camada isolante, uma vez que fabricantes inidôneos possuem a prática de aumentar a espessura da camada isolante para “compensar” o menor diâmetro da parte metálica ou até mesmo aumentar esta camada, propositadamente, fazendo com que o cabo fique com diâmetro maior do que um cabo regular com o propósito de iludir ainda mais o cliente”, alerta Takeda.

Afinal, quais são os riscos e problemas decorrentes da instalação de fios e cabos de baixa qualidade em uma obra? De acordo com Marcondes Silvestre Takeda, instalar fios e cabos elétricos de baixa qualidade coloca em risco os bens e as vidas das pessoas. “Nesta condição de baixa qualidade, os fios e cabos elétricos não possuem a capacidade de conduzir a corrente elétrica do projeto, fazendo com que os equipamentos ligados tenham mal funcionamento e os fios e cabos se sobreaqueçam. Aquecimento este que, além de aumentar o consumo de energia elétrica, pode levar a um curto-circuito elétrico e consequentemente a um incêndio”, especifica.

Nelson Volyk reforça que são grandes os riscos para a integridade física das pessoas e preservação de patrimônio. O risco de incêndio é iminente com o uso de fios e cabos de baixa qualidade, devido à sua redução de capacidade de transmissão de energia há o aquecimento, que não será percebido pelo disjuntor. Esse aquecimento poderá ser o causador de um incêndio, que coloca vidas em risco. “Além disso, esses condutores elétricos não irão durar décadas como um produto de qualidade, fazendo com que o custo a longo prazo seja maior, inclusive o custo das perdas elétricas na instalação que é cobrada na conta de energia elétrica”, completa Volyk.

Principais cuidados a serem tomados

Sobre os cuidados que precisam ser observados na aquisição dos fios e cabos elétricos que serão utilizados em uma obra, Marcondes Silvestre Takeda destaca que o principal ponto é não comprar considerando apenas o fator preço. “Neste segmento, como as irregularidades são frequentes e com a presença de fabricantes não idôneos, o barato literalmente sairá muito mais caro! O recomendado é considerar sempre a compra de produtos de fabricantes tradicionais, marcas reconhecidas e produtos certificados”, diz.

Para escolher a marca a ser comprada o ponto de partida é buscar produtos que possuam a certificação de conformidade do INMETRO emitida por organismos certificadores de produtos (OCP) de primeira linha. “É importante que esses produtos e marcas sejam de fabricantes reconhecidas e tradicionais deste mercado. Vale também verificar se o número de registo no selo/certificado está dentro da validade e, na dúvida, é recomendável uma pesquisa sobre a existência de algum tipo de denúncia a respeito da qualidade do produto, da marca em questão ou até mesmo sobre a existência de apreensão destes produtos por motivos de irregularidade/falta de qualidade. Infelizmente, o fato de uma marca ostentar a certificação do INMETRO, isoladamente, não é garantia absoluta de qualidade”, analisa Takeda.

Nelson Volyk observa que primeiramente é necessário a segurança de estar adquirindo produtos elétricos de qualidade, que sigam as normas técnicas, pois as normas de produto estão relacionadas com a norma de “Instalações Elétricas de Baixa Tensão”, que é a NBR 5410. “Quando se faz um projeto elétrico ele deve estar de acordo com a NBR 5410, e é esta norma que define a capacidade de corrente dos cabos utilizados, pois há uma relação entre todas essas normas. O problema é que se o cabo for desbitolado, a sua capacidade de corrente será menor, mas o projetista não sabe disso e está utilizando os parâmetros da NBR 5410. Desta forma o valor nominal de um disjuntor definido para proteger um circuito não está adequado para proteger o cabo desbitolado, desta forma o cabo poderá trabalhar em sobrecarga e o disjuntor não irá desarmar, ou seja, ele não fará o seu papel devido ao uso do cabo de baixa qualidade”, comenta o executivo da SIL.

Situação do mercado

As vendas de fios e cabos elétricos no Brasil estão condicionadas a diversos fatores. Conforme explica Tiago Souza (foto), gerente Comercial de T&I do Grupo Prysmian, o movimento do segmento de baixa tensão, nas construções em geral, está diretamente correlacionado ao crescimento econômico do país, do PIB, a segurança para atratividade de investimentos, e taxa de juros e financiamento com custo alinhado ao mercado. “Esses fatores propiciam um ambiente favorável a investimentos em políticas de atendimento a setores ainda deficitários no país, como habitação e infraestrutura, e atraem a reboque reformas residenciais, comerciais e industriais no mercado privado. Com o exercício desses fatores diretos, observamos nos últimos anos um impacto negativo no setor de cabos de baixa tensão, acompanhando a retração econômica e a escassez de crédito”, aponta.

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