Mundo de condutores elétricos: De olho na qualidade!

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Sindicel e qualifio seguem firme no trabalho de monitoramento do mercado de fios e cabos e divulgam novos números.

REPORTAGEM: CLARICE BOMBANA

Durante o ano de 2018, 70% dos fabricantes de fios e cabos elétricos certificados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) estavam comercializando produtos fora da especificação técnica (não conformes). O percentual é o mesmo que o ano anterior e 32% maior que o registrado em 2016. “Infelizmente, esses fabricantes desonestos utilizam o selo de conformidade do Inmetro e despejam no mercado toneladas de fios e cabos sem as especificações técnicas protocoladas, causando prejuízos inestimáveis aos comerciantes, consumidores e empresas idôneas em todo País”, declara Enio Rodrigues, diretor-executivo do Sindicel.

Os dados constam do relatório anual realizado pela Qualifio (Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos), que, desde 1993, monitora o mercado e identifica certificadoras e fabricantes que operam de maneira irregular, notificando as autoridades competentes. Suas atividades são desenvolvidas em conjunto com o Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação do Estado de São Paulo (Sindicel) e o Instituto Brasileiro do Cobre (Procobre). Em outras palavras, a missão da Qualifio é inspecionar constantemente os fios e cabos comercializados nos principais pontos de venda, a fim de garantir que o consumidor não compre “gato por lebre”.

No período de janeiro a dezembro de 2018, foram avaliados 95 fabricantes brasileiros de fios e cabos elétricos e testadas 611 marcas, com um resultado alarmante: 57% das amostras testadas (348) estavam não-conformes e apenas 43% (263) estavam de acordo com as especificações técnicas. “Os produtos fora da especificação apresentaram um desvio de resistência elétrica de até 29%, ou seja, risco iminente de incêndio”, alerta Enio Rodrigues.

Das 611 amostras testadas, 24% eram oriundas de fabricantes certificados e conformes, e 6% de fabricantes não certificados e não conformes. Essas amostras que se encontravam em desacordo com as normas técnicas eram provenientes de 66 fabricantes diferentes. A totalidade dos fabricantes associados à Qualifio (18) estavam conformes.

De acordo com Maurício Sant’ana, secretário-executivo da Qualifio, a certificação de produtos realizada por organismos credenciados pelo Inmetro não é confiável porque, no momento em que é realizada a auditoria na fábrica e dos produtos, o fabricante mostra-se devidamente preparado e, após o término da inspeção, a empresa volta a produzir produtos de má qualidade. “A grande falha é que os Organismos Certificadores não coletam produtos no mercado para serem confrontados com os resultados obtidos nas auditorias, e os fabricantes de má índole aproveitam-se dessa deixa”.

Por meio do recebimento de denúncias, que podem ser realizadas por consumidores, lojistas e demais públicos, a Qualifio adquire fios e cabos para análise, além das coletas realizadas diretamente no mercado B2B e no varejo, em todo território nacional. Então, as amostras são encaminhadas a laboratórios credenciados pelo Inmetro, que realizam testes de qualidade de acordo com as normas de fabricação. Os resultados são analisados pela Qualifio, publicados em relatório e enviados para os fabricantes, comerciantes, Organismo de Certificação de Produtos (OCP) e para o Inmetro. “A fiscalização normalmente ocorre através de denúncias, porém, a morosidade burocrática dificulta a autuação ou mesmo apreensão de produtos de má qualidade”, afirma Sant’ana.

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O Sindicel está transformando as ações de monitoramento da Qualifio em ações de combate ao mercado ilegal junto às autoridades competentes.

ENIO RODRIGUES | DIRETOR-EXECUTIVO DO SINDICEL

Nos casos em que a amostra esteja irregular, as empresas certificadas pelo Inmetro podem ser multadas e são notificadas pelo OCP para adequar seus produtos. Já as empresas que não são certificadas pelo Inmetro, a Qualifio notifica as organizações públicas, que, por sua vez, informam diretamente as empresas com irregularidades.

O fabricante que tiver sua amostra irregular poderá ser notificado pelo órgão regulamentador e poderá ter seu produto retirado do mercado. O lojista que estiver comercializando produtos com irregularidades poderá ser multado. Caso fabricante e lojista continuem a oferecer fios e cabos com irregularidades, estes poderão responder criminalmente.

A Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos pretende ainda lançar o Selo Qualifio para seus associados, com o objetivo de atestar ao público consumidor a qualidade e segurança do produto, e garantir sua confiabilidade no mercado. Terão o Selo Qualifio estampado em seus produtos apenas os fabricantes cujos resultados dos ensaios realizados, semestralmente, em laboratórios credenciados pelo Inmetro, atendam as normas vigentes no mercado brasileiro.

Mercado Ilegal

De acordo com o Sindicel, o faturamento do mercado brasileiro de fios e cabos elétricos em 2018 girou em torno de R$ 5,6 bilhões e o volume de cobre consumido foi de 140 mil toneladas, sem grandes variações em relação ao ano anterior. Dentro desse cenário, a estimativa é que o mercado ilegal seja responsável por 30% dos produtos vendidos e produza uma receita em torno de R$ 1,6 bilhão, com cerca de 156 fabricantes atuantes e certificados pelo Inmetro.

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Os fios e cabos elétricos de má qualidade prejudicam o consumidor porque, além de aumentarem o consumo de energia, podem causar incêndios e até mesmo perda de vidas.

MAURICIO SANT’ANA | SECRETÁRIOEXECUTIVO DA QUALIFIO

“Os fios e cabos elétricos de má qualidade no mercado ilegal prejudicam o consumidor porque, além de aumentarem o consumo de energia, podem causar incêndios e até mesmo perda de vidas, devido à resistência elétrica dos condutores ser muito maior do que o valor especificado, levando ao aquecimento do cabos e das tomadas”, informa o secretário da Qualifio. “Também há o problema da falha no isolamento dos cabos não confiáveis, geralmente devido ao uso de PVC de má qualidade. Sendo assim, com o aquecimento do condutor e com a baixa resistência do isolamento, os cabos se deterioram muito mais rapidamente, obrigando o consumidor a trocá-los em períodos menores que o estabelecido, acarretando prejuízos”.

Entre as últimas ações executadas contra operadores do mercado ilegal deste segmento estão a operação conduzida pela Delegacia de Crimes contra o Consumidor do Paraná, onde quatro fábricas foram alvo de procedimento de busca e apreensão. O pedido de prisão dos administradores das empresas encontra-se em análise.

Segundo Enio Rodrigues, foram apreendidas 17 toneladas de fios e cabos elétricos, com selo do Inmetro, fora da especificação técnica. Laudos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-PR) confirmaram o altíssimo desvio de resistência elétrica nos produtos apreendidos, em alguns itens acima de 100%.

Operações similares realizadas no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul fecharam duas fábricas e promoveram apreensões em diversos estabelecimentos comerciais. Outros negócios irregulares estão em fase de investigação em Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia e Espírito Santo. “Em São Paulo, foi protocolada denúncia no Ministério Público envolvendo nove empresas. Procuradores intimaram fabricantes, construtoras, pontos de venda, distribuidores, certificadoras, Inmetro e Ipem-SP a prestarem esclarecimentos sobre o volume absurdo de produtos no mercado que estão fora do padrão normativo”, acrescenta o diretor do Sindicel.

“O Sindicel está transformando as ações de monitoramento da Qualifio em ações de combate ao mercado ilegal junto às autoridades competentes. Também estamos executando um trabalho forte de comunicação com os setores envolvidos, como construção civil, varejo, fabricantes e fornecedores de matéria-prima para reduzir os números apresentados de produtos ilegais”, finaliza o diretor.

Monitoração de Fios e Cabos

Fonte: Qualifio.org.br

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