Por Raphael Diniz*
No contexto das atmosferas explosivas, é comum que a certificação de produtos receba atenção prioritária. Um equipamento com selo Ex é frequentemente visto como sinônimo de segurança garantida. No entanto, essa percepção, embora compreensível, ignora um ponto central das normas internacionais: a segurança em áreas classificadas não é assegurada exclusivamente pelo produto, mas sim pela conformidade de todo o sistema onde ele será instalado.
A certificação de produto Ex atesta que um equipamento foi desenvolvido e ensaiado conforme os requisitos estabelecidos na série IEC 60079, com marcações obrigatórias que definem sua adequação para diferentes tipos de gases ou poeiras, faixas de temperatura e modos de proteção (como Ex d, Ex e, Ex i, Ex p). No Brasil, essa certificação é emitida por organismos acreditados pelo Inmetro, segundo regulamentos técnicos de avaliação da conformidade (RTQ). Trata-se de um processo essencial, que valida o equipamento para operação segura — mas não suficiente por si só.
É necessário compreender que o produto certificado é apenas o ponto de partida. Uma instalação elétrica em atmosfera explosiva envolve diversos outros elementos: painéis, conexões, prensa-cabos, barreiras de segurança, sistemas de aterramento, distâncias de segurança e, sobretudo, o contexto operacional em que esses elementos estão inseridos. Quando se considera o sistema como um todo, entra em cena a avaliação de conformidade sistêmica, frequentemente chamada — de forma informal — de “certificação de sistema Ex”.
Embora não exista um certificado formal de “sistema Ex” emitido por organismos certificadores, as normas técnicas deixam claro que a segurança real depende da instalação como um todo atender integralmente aos requisitos normativos. A IEC 60079-14 (Instalação elétrica em atmosferas explosivas) define critérios específicos para montagem, seleção de equipamentos, posicionamento e conexões. Já a IEC 60079-17 trata da manutenção e inspeção periódica, e a IEC 60079-19 estabelece regras para reparo e recuperação de equipamentos. A IEC 60079-34 complementa o ciclo, exigindo controle de produção e consistência nos processos fabris. Todas essas normas são adotadas no Brasil pela ABNT, e seu cumprimento é essencial para assegurar a integridade da instalação ao longo do tempo.
Na prática, o descompasso entre certificação de produto e conformidade do sistema tem gerado situações críticas: equipamentos corretamente certificados são instalados com acessórios incompatíveis, sem documentação técnica, em zonas inadequadas ou por profissionais não capacitados. Mesmo com todos os componentes portando certificados válidos, o risco de falha pode se manter elevado — ou até ampliado, se os elementos forem combinados de forma inadequada. Trata-se do que se costuma chamar de “risco disfarçado de conformidade”.
A importância do profissional qualificado
Nesse contexto, ganha importância o papel dos profissionais competentes, como previsto pelo modelo IECEx CoPC (Certification of Personnel Competence). A conformidade sistêmica exige que engenheiros, técnicos e inspetores tenham conhecimento aprofundado das normas, saibam interpretar marcações Ex, entendam os critérios de compatibilidade entre dispositivos e executem inspeções com base em métodos reconhecidos. A certificação de pessoas é, portanto, um elo indispensável para garantir que os requisitos normativos saiam do papel e sejam aplicados com rigor técnico no campo.
Outro aspecto fundamental é a rastreabilidade documental. A instalação deve ser acompanhada por laudos técnicos, listas de equipamentos certificados, desenhos atualizados e registros de inspeções. Sem esse arcabouço, é impossível comprovar que o sistema está em conformidade com a norma — mesmo que todos os produtos individualmente estejam certificados.
É importante frisar que essa não é uma exigência “teórica” ou de nicho. A NR-10 e a NR-20 exigem que instalações em áreas classificadas sigam as normas técnicas aplicáveis. A conformidade do sistema é, portanto, uma obrigação legal e técnica, e não apenas uma boa prática. O empregador ou integrador que negligencia essa responsabilidade incorre em risco não apenas operacional, mas também jurídico.
Em síntese: certificação de produto é necessária, mas não suficiente. A proteção real em atmosferas explosivas depende da conformidade do sistema como um todo — desde o projeto até a manutenção contínua. A confusão entre esses dois níveis de verificação é um dos gargalos técnicos mais relevantes em segurança Ex, e precisa ser enfrentada com seriedade. A robustez de um componente não compensa uma instalação inadequada. E segurança, nesse contexto, não é um atributo herdado pelo produto — é uma construção sistêmica, consciente e continuamente validada.
