Cresce o mercado ilegal

🥇Matéria de Capa da Edição 242 da Revista Potência

Reportagem: Paulo Martins

O setor de materiais elétricos registrou prejuízo de R$ 11 bilhões em 2024, devido à existência do comércio ilegal de produtos.

A pirataria de produtos, e, em um contexto mais amplo, o descaminho, o comércio irregular e o contrabando são atividades que prejudicam empresas que trabalham corretamente e levam risco aos consumidores. Esses tipos de crimes movimentam enormes quantias de dinheiro e geram grande prejuízo para a sociedade como um todo.

Segundo dados da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), em 2024, o país registrou crescimento no prejuízo relacionado à falsificação, contrabando, pirataria e mercado ilegal na ordem de 27%, em relação ao ano anterior.

Os prejuízos relacionados à falsificação e ao contrabando entre 2024 e 2025 ultrapassaram R$ 471 bilhões.

Os setores mais prejudicados pelo mercado ilegal, que perdem com falsificação, fraudes, sonegação, contrabando e concorrência desleal são: bebidas alcoólicas (prejuízo de R$ 86 bilhões em 2024), vestuário (prejuízo de R$ 51 bilhões em 2024) e combustíveis (prejuízo de R$ 29 bilhões em 2024).

O setor de materiais elétricos registrou prejuízo de R$ 11 bilhões em 2024. Já foram falsificados itens como resistências de chuveiro, lâmpadas, chuveiros, transistores e motores elétricos, entre outros. “É uma gama de produtos muito grande, mas o maior volume de falsificação de materiais elétricos que a gente pega hoje em dia se dá com lâmpadas automotivas. São produtos que têm um giro bom, têm um certo valor agregado. O falsário na China faz uma lâmpada falsa por 20 centavos de dólar. Ele vende essa lâmpada falsa aqui no Brasil por 20 reais, ou seja, ele ganha quase 3 mil por cento na cadeia. Esses produtos acabam chegando no Brasil e entrando no mercado porque os nossos produtos têm uma carga tributária embutida muito maior e as margens das empresas que produzem e revendem aqui são menores. Então o falsário tem esse apelo para ganhar esse mercado, principalmente relacionado ao custo de produção e ao preço final desses produtos”, analisa Rodolpho Ramazzini, diretor de Comunicação da ABCF.

O executivo conta que houve um incremento muito grande da participação do e-commerce na disseminação de produtos falsos no mercado brasileiro. “Infelizmente, esses números tendem a continuar crescendo, porque a Receita Federal, no ano passado, trabalhou em operações-padrão quase o ano inteiro, ficou em greve durante muito tempo e essas operações favoreceram a entrada de produtos no mercado brasileiro”, constata. Além disso, o Brasil tem uma fronteira cada vez mais porosa por onde chegam produtos dos países limítrofes.

Cerca de 35% de toda a muamba que chega ao consumidor final é através de canais como as plataformas de e-commerce e as mídias sociais.

“Tudo aliado ao Brasil estar passando por um momento em que a nossa moeda não vale muito, em que a carga tributária está crescendo e em que o governo não faz o controle efetivo das nossas fronteiras, faz com que a situação tenha piorado”, alerta Ramazzini.

Ele diz que o setor legalizado tenta reagir com diversas atitudes, criando também plataformas de venda dos produtos legais via e-commerce, tentando equalizar preço, tentando sensibilizar as autoridades junto com a ABCF para que o controle das fronteiras seja feito de maneira mais efetiva em relação a esses produtos, mas, infelizmente, o mercado ilegal vem crescendo.

Para Ramazzini, as autoridades precisam fazer mais. “Frente ao volume de produtos que está entrando no nosso mercado, a gente não está conseguindo frear esse negócio da maneira que deve, porque o buraco é muito grande. As fronteiras são porosas demais e o governo federal, aumentando o tributo sobre o setor produtivo, ele deixa esse setor cada vez mais enforcado para combater o mercado ilegal”, lamenta.

RODOLPHO RAMAZZINI
Diretor de Comunicação da ABCF

“As fronteiras são porosas demais e o governo federal, aumentando o tributo sobre o setor produtivo, ele deixa esse setor cada vez mais enforcado para combater o mercado ilegal.”

Ramazzini aponta que o e-commerce é o principal fator que auxiliou nesses últimos anos na disseminação desses produtos ilegais no mercado brasileiro, bem como a aproximação cada vez maior do governo brasileiro com o governo chinês, que facilita a importação de bens chineses aqui no Brasil com declaração falsa de importação e subfaturados, o que aumenta a concorrência desleal contra os empresários e as empresas instaladas no país. “Tudo isso cria uma conjunção de fatores que nos traz para um problema preocupante para a saúde, para a segurança dos consumidores e também para o faturamento da indústria legal”, conclui o diretor da ABCF.

Mas que tipo de providência uma empresa pode tomar se ela perceber que tem produto dela sendo pirateado? Ramazzini conta que tem um rol de empresas que trabalham em conjunto com a ABCF há anos para combater esse tipo de problema e manter a situação dentro de uma escala ‘tolerável’. “Mas, infelizmente, não são todas as empresas e todas as marcas que são vítimas dessa consequência judicial que trabalham aqui conosco para combater isso. Tem empresas que simplesmente encaminham as denúncias para as autoridades e acham que as autoridades sozinhas vão resolver alguma coisa. Só que o governo não tem nem braço para fazer isso. O governo precisa que a gente leve o que a gente costuma fazer aqui. Fazer investigações prévias, entregar o negócio ‘mastigado’. Se não quer investir em investigação, inteligência, em canais de defesa do consumidor, você vai ter um problema cada vez maior. Então, o ideal seria as empresas separarem o budget todo começo de ano, como é o caso das que atuam aqui conosco, para investir nessa proteção à marca, nessa proteção ao consumidor e, dessa maneira, combater esse mercado ilegal com um pouco mais de efetividade”, recomenda Ramazzini.

E o consumidor, o que ele pode fazer para se proteger? Ramazzini diz que primeiramente o consumidor tem que tomar cuidado com produto muito barato, porque essa situação, em um país com a carga tributária do Brasil, a chance dele ser falsificado, contrabandeado ou roubado é enorme. “No Brasil não existe mágica, com a carga tributária que a gente tem. Então, se o produto estiver muito barato, desconfie”, orienta.

Outra atitude envolve comprar produtos em local de extrema confiança, e, ao verificar qualquer diferença na qualidade desse produto, na embalagem, na tonalidade, enfim, qualquer característica que esteja diversa da que você está habituado, entre em contato imediatamente com o SAC da empresa fabricante, ou efetue essa denúncia diretamente nos canais da própria ABCF que a entidade irá verificar essa denúncia. “Se ela proceder, vamos encaminhar esse caso para as autoridades, para fechar essa fonte produtora ou importadora de produtos ilegais. Se o consumidor tomar esses devidos cuidados, é óbvio que ele fica muito mais resguardado de comprar um produto desse falsificado e de ter um problema que possa tentar contra a sua saúde ou contra a sua segurança”, destaca Ramazzini.

O executivo conta que a ABCF vem trabalhando firme e a cada ano que passa vem batendo recordes de atuação em conjunto com as autoridades. “A gente vem lutando em conjunto com as autoridades para brecar esse aumento do mercado ilegal em todos os setores da economia”, garante.

Mas Ramazzini aponta que houve a entrada do crime organizado em diversos setores, o que maximizou o tamanho do buraco e gerou desafios diferentes, como por exemplo no setor de combustíveis, no de bebidas e no de cigarros. Facções entraram com dinheiro, maximizando o tamanho do problema. “A gente teve que se adaptar para atuar contra essas quadrilhas mais estruturadas do crime organizado. A gente antes pegava os falsários, os contrabandistas. Agora a gente tem que vistoriar bandido, mesmo. Então está cada vez mais difícil de trabalhar”, comenta.

Ele explica que tudo isso acontece porque hoje no Brasil não existe um controle do que é produzido aqui. “Faltam, em vários setores da economia, ferramentas que nos possibilitem ter a rastreabilidade do produto original, para que a gente possa mais facilmente diferenciar o produto original do falso, facilitando as fiscalizações e aumentando as apreensões. Em setores onde existe rastreabilidade fica facilitado identificar o que é legal e o que é ilegal”, compara.

Ramazzini acredita que se todo produto original fosse marcado na origem, tivesse por exemplo uma marcação com tinta de segurança, ou QRcode, para que o próprio consumidor do seu celular pudesse olhar com a câmera se aquele produto é original ou não, isso facilitaria também as fiscalizações do Poder Público, incrementaria as apreensões e aumentaria a segurança do consumidor final quando ele fosse adquirir qualquer tipo de produto.

“A ABCF defende a implementação, nos setores mais atingidos pelo mercado ilegal, de ferramentas de rastreabilidade que possibilitem ao consumidor identificar o produto original de maneira mais fácil, bem como as autoridades que fazem a fiscalização na ponta, para que a gente tenha um incremento no volume de produtos apreendidos e que possa diminuir o market share que o mercado ilegal e o crime organizado hoje têm no setor de falsificação de produtos”, conclui Ramazzini.

Situação na Indústria Elétrica e Eletrônica

O setor eletroeletrônico é vítima frequente do comércio irregular. A ABINEE (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) representa 11 áreas da indústria. De acordo com o gerente de Tecnologia e Política Industrial da entidade, Israel Guratti, de toda a gama de produtos representados, três grupos são mais afetados.

Primeiramente destaca-se a pirataria em produtos de informática e telecomunicações, notadamente telefones celulares. “Não pirataria, mas sim comércio irregular. Não tem celular falsificado, tem celular das marcas internacionais que entram no Brasil via descaminho. É um produto legal, registrado, mas entra sem pagar um real de imposto no Brasil e entra sem participar da Lei de Informática e sem pagar o PeD obrigatório. Então aí são milhões de reais em pesquisa e desenvolvimento que são perdidos pela indústria e por outros atores da cadeia. Por exemplo, tem milhares de empregos e institutos de pesquisa que são mantidos pela verba de pesquisa e desenvolvimento que os fabricantes nacionais pagam para o governo. E mantêm projetos próprios, tudo sob a égide da Lei de Informática. Se o produto entra em descaminho, que é um produto pirata também, não é recolhido o PeD e aí milhares de empregos de pesquisa ficam prejudicados”, explica Guratti.

Ainda envolvendo a questão do telefone celular, até 2024, cerca de 25% do mercado era atendido por importações irregulares. “O Paraguai, que tem 8 milhões de habitantes, estava importando 20 milhões de telefones celulares, por exemplo. A gente sabia que ia parar tudo aqui no Brasil”, lamenta Guratti. Com as ações da Abinee, intensificando o combate junto à Anatel, à Secretaria Nacional do Consumidor, Ministério da Justiça e Receita Federal, entre outros órgãos, esse número, neste ano, está pré-estimado para 12% do mercado e com tendência de cair bastante nos próximos meses.

De acordo com Guratti, compensa o consumidor gastar um pouquinho a mais e comprar um telefone no canal oficial de venda e ter todas as garantias que o protegem. “A diferença de preço é justamente o imposto. Se você for ver um telefone em descaminho, vendido no marketplace, e um telefone, o mesmo modelo, vendido num estabelecimento regular, pode ser on-line ou físico, a diferença é por volta de 40%, que é a diferença justamente do recolhimento de impostos e das obrigações legais que o fabricante tem que cumprir. Então, é um produto que, de fato, vale a pena o consumidor comprar no mercado regular”, destaca.

Um segundo grande grupo da ABINEE que sofre com a pirataria é o de material elétrico de instalação. “A pirataria nesse setor estava até então contida, devido às iniciativas de certificação compulsória lideradas pelo Inmetro, mas a gente está vendo uma entrada de produto irregular, produto sem certificação, produto que de fato coloca em risco as instalações e a segurança dos usuários, de instalações elétricas.

São produtos entrando no Brasil via marketplaces. Começa a ter tomadas de marcas sem certificação e marcas regulares falsificadas, vendidas na internet. O produto sem certificado entrando via marketplace está representando um problema para o setor de material elétrico”, constata Guratti.

As ações criminosas, além de reduzirem o faturamento do setor, deixam de pagar impostos e colocam o consumidor em risco, porque não se sabe se esse material elétrico cumpre com as exigências de segurança e de desempenho que as normas e a certificação compulsória exigem. “Sem passar pelo ensaio e pela auditoria de organismos de certificação de produto, o consumidor está correndo risco. E muitas vezes o preço não é tão menor do que o preço de um varejista regularmente estabelecido de um fabricante local. Às vezes o consumidor economiza um pouquinho e leva para casa um produto inseguro”, alerta Israel Guratti.

ISRAEL GURATTI
Gerente de Tecnologia e Política Industrial – ABINEE

“Se o preço está muito abaixo dos concorrentes, pode desconfiar que alguma coisa errada tem nessa venda.”

O terceiro grande grupo prejudicado pela pirataria envolve os produtos usados em automação e segurança que entram no país sem cumprir as exigências de homologação.

“Às vezes o importador importa uma câmera de segurança com uma característica e fala que está importando outra coisa. Essa outra coisa, que às vezes não é sujeita a nenhum controle de produto, acaba passando na alfândega e quando vai ver, chega um produto diferente. Essa pirataria é muito prejudicial ao setor”, lamenta Guratti.

A questão dos produtos contrafeitos também afeta a área industrial hoje em dia, envolvendo itens como contatores e relés. “A gente tem encontrado bastante coisa contrafeito, falsificada mesmo, com a marca dos grandes fabricantes globais, sendo colocada no mercado. Eles vêm em importação via Paraguai. O risco que representa ao consumidor e às instalações é enorme”, aponta Guratti.

O gerente de Tecnologia e Política Industrial da ABINEE destaca que a pirataria afeta a indústria, mas principalmente o consumidor dos produtos, porque ele é o elo mais frágil da cadeia. “A indústria é prejudicada porque deixa de vender produtos, deixa de obter receitas, diminui o faturamento. O governo é prejudicado porque deixa de arrecadar impostos e o consumidor é lesado de fato podendo ter até sua vida em risco dependendo do produto e do grau de risco que ele fica exposto com o produto pirata”, observa Guratti.

Sobre os riscos de comprar e usar um produto pirata, Guratti diz que consumidor não tem a garantia de que o produto foi ensaiado corretamente de acordo com as normas técnicas. “Isso é muito importante porque quando a gente compra material elétrico nos varejistas, nos canais oficiais, existe a certificação compulsória do Inmetro. Então você tem certeza de que aquele produto que você está comprando foi ensaiado, e um organismo de certificação de terceira parte independente aferiu isso e mantém um sistema de acompanhamento da produção do fabricante. A gente tem certeza de que todas as peças daquele produto seguem um sistema de qualidade de produção e seguem um padrão para que todos eles colocados no mercado sejam considerados seguros. E se a gente usar esse produto seguro nas instalações da forma correta, o risco de acidente praticamente não existe”, detalha.

Agora, se for um produto sem esse acompanhamento, sem a verificação do organismo certificado, o consumidor fica exposto a riscos. “Quando compra um produto, por exemplo, uma tomada, você não sabe se os contatos dela seguram o plugue. Então, ele pode ficar frouxo, e ficando frouxo ele gera aquecimento, e gerando aquecimento pode derreter o material e causar um incêndio na instalação. Ou então pode derreter o material, ficar uma parte metálica exposta e o consumidor levar choque, principalmente as crianças. Esses riscos de usar produto pirata, irregular, sem certificação, são extremamente relevantes para os consumidores”, alerta Guratti.

O gerente de Tecnologia e Política Industrial da ABINEE conta que o Inmetro recentemente lançou algumas ferramentas que o consumidor pode usar para se proteger na hora da compra. Uma delas chama-se Inmetro na palma da mão. Os produtos têm um QR Code na embalagem, o consumidor aponta e aí é remetido para um sistema que vai informar se o artigo está regular ou não. A tecnologia já está disponível em produtos como capacetes e cilindros de extintor de incêndio, itens que não do setor eletroeletrônico, mas que também representam risco caso sejam piratas. “A gente entende que o Inmetro está aperfeiçoando essa ferramenta e vai estender para outros produtos também”, acredita Israel Guratti.

Uma outra atitude do consumidor é a desconfiança do preço, além da aparência do produto. “Se o preço está muito abaixo dos concorrentes, pode desconfiar que alguma coisa errada tem nessa venda”, frisa Guratti.

E também tem a questão da verificação da marcação Inmetro junto com o número do OCP. “Quando a gente vai comprar um adaptador regular para tomada, uma régua de tomadas, tem o logotipo do Inmetro, embaixo um logotipo do organismo e um número. Se o consumidor identificar visualmente esses itens, já é um grande indicativo, mas se ainda ele tiver dúvida, o próprio site do Inmetro tem todos os produtos e os certificadores. Ele pode olhar e ver se bate aquele produto com aquele certificador. No caso de telefone celular, tem o selo da Anatel, tem o código. Ele pode ir no site da Anatel verificar se há homologação de produto. Caso não haja, caso ele de fato notifique ou tenha dúvida, tanto Inmetro como a Anatel tem canais de denúncia”, orienta Guratti.

Na opinião de Guratti, a principal razão da pirataria e do comércio irregular existir é porque tem pessoas que aderem a isso, comprando esses produtos. “Se o consumidor for consciente, ficar alerta e não comprar esses produtos, já é um grande inibidor desse comércio irregular e um grande fomentador do comércio regular que, de fato, beneficia a toda a sociedade”, conclui.

As empresas que forem vítimas da pirataria também podem se valer dos mesmos canais de denúncia das agências reguladoras. A ABINEE representa várias áreas da indústria elétrica e eletrônica, e cada área tem a sua particularidade. A realidade da parte elétrica é bem diferente da parte eletrônica, mas a entidade acompanha cada vertical de cada área da indústria, recebendo a alimentação de informações pelos associados. “A ABINEE age setorialmente. Ela procura as agências, levanta dados para que as agências tenham condições de planejar suas ações, tanto de fiscalização como de enforcement, que é de fato ir lá e aprender produto. No caso de a gente receber informação de que algum fabricante associado nosso que identifica alguma irregularidade, a gente oferece uma denúncia para a agência responsável. A ABINEE faz isso para o fabricante não se expor. A ABINEE também atua no sentido educativo, investindo em campanhas para o consumidor”, detalha Guratti.

Panorama da indústria de condutores elétricos

A indústria de fios e cabos também sofre com a pirataria, como confirma Ênio Rodrigues, diretor-executivo do Sindicel (Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais não Ferrosos do Estado de São Paulo).

De acordo com ele, algumas marcas têm sido pirateadas. “Com as marcas mais famosas, que têm mais apelo de mercado, têm acontecido alguma coisa. Aqui em São Paulo já pegamos algumas piratarias, fizemos algumas investigações, conseguimos localizar quem estava fazendo, quem estava vendendo e penalizar, mas existe, sim, uma pirataria. Não é o grande ponto do mercado, a pirataria, mas ela existe”, testemunha.

O setor de fios e cabos registra principalmente outros tipos de irregularidades. A primeira e mais contundente é a não conformidade. “Existe uma norma exigindo que se use cobre eletrolítico, e tem as medições, a resistência elétrica para cada tipo de cabo. E tem empresas que não fazem produto conforme ou reduzem o volume de cobre, e aí vai ter resistência elétrica maior, ou simplesmente substituem por alumínio cobreado, que é terrivelmente pior, e aí vamos ter resistências elétricas 200, 300 vezes maior do que o permitido, com consequências gravíssimas de segurança, como incêndios”, detalha Ênio.

E os problemas continuam: “Existem muitas marcas que têm o selo do Inmetro, vão lá, fazem a certificação, tudo certinho, mas voltam para dentro da fábrica e começam a fazer produto fora de conformidade. De 156 marcas que a gente já levantou, homologadas pelo Inmetro, mais de 70% dessas fábricas estavam fora de conformidade. Tinham algum produto que não atendia às normas do Inmetro. Então, o caso é gravíssimo”, lamenta Ênio.

ÊNIO RODRIGUES
Diretor-executivo do Sindicel

“Existem muitas marcas que têm o selo do Inmetro, vão lá, fazem a certificação, tudo certinho, mas voltam para dentro da fábrica e começam a fazer produto fora de conformidade.”

Para identificar os principais sinais que indicam que o produto está fora de conformidade, normalmente o quesito é o preço, que destoa muito da realidade. “A tonelada do cobre custa em torno de 13 mil dólares no mercado e você vê produtos na metade do preço de produto normal. Existem casos que além do cobre, a empresa também coloca uma cobertura que não está de acordo com as normas. Deveria ser antichama e ela pega fogo. São vários os problemas que acontecem”, descreve Ênio.

Para se proteger, o consumidor pode consultar o site da Qualifio e do Sindicel, onde têm informações sobre produtos não conformes. “Se ele identificar ou tiver uma suspeita ele pode nos procurar, nós fazemos um laudo gratuitamente para ele, com esse laudo ele pode recorrer aos marketplaces, ao local onde ele comprou e pegar o dinheiro dele de volta, e ele pode até processar a fábrica e o lojista que vendeu o produto. Damos todo apoio, se algum consumidor quer processar fabricante ou lojista”, informa Ênio.

Com a indústria que trabalha corretamente é a mesma coisa, se ela descobrir que tem concorrente dela fabricando produto fora de conformidade ela pode denunciar ao Sindicel. “A gente faz a investigação, compra produto, faz teste e depois denuncia junto às autoridades, pedindo cancelamento de registro ou faz denúncia ao Inmetro. Tem várias formas de se manifestar em relação ao produto não conforme”, esclarece Ênio.

Os números do mercado ilegal de fios e cabos impressionam. O mercado total de fios e cabos registrou em 2024 um faturamento anual de R$ 8,21 bilhões. A estimativa é de que o mercado ilegal em 2024 representava 30% dos produtos comercializados no Brasil. A estimativa de vendas de produtos ilegais em 2024 chegava a R$ 2,64 bilhões.

Há 156 empresas com marcas licenciadas pelo Inmetro. Dessas, havia 116 empresas fabricando produtos fora de conformidade técnica. Setenta por cento das marcas testadas no mercado tinham resistência elétrica acima da especificação técnica do Inmetro.

Os principais efeitos da comercialização de fios e cabos elétricos fora de conformidade são: insegurança dos consumidores (risco de incêndio); desperdício de energia; apropriação indevida de recursos públicos; uso de produtos irregulares em programas habitacionais, leilões nas esferas governamentais e construtoras utilizando material não conforme.

Indústria de iluminação também é atingida

A indústria de iluminação é outra área que registra casos de prática de pirataria. “O setor de iluminação sofre com a oferta de produtos que não condizem com as especificações mínimas estabelecidas em portaria do Inmetro”, destaca Marco Martins Poli, diretor-executivo da ABILUX (Associação Brasileira da Indústria de Iluminação).

De acordo com ele, predomina a pirataria nos produtos de iluminação com LED de grande consumo, tais como lâmpadas, plafons, refletores para uso residencial e nas luminárias de aplicação viária. “Tem predominado a pirataria na modalidade que não atende especificação Inmetro, tem ocorrido nas lâmpadas LED e nas luminárias de alto giro/consumo e nas luminárias públicas. Para outros produtos, o que tem ocorrido é a utilização de componentes de qualidade inferior, em desacordo com o utilizado no ensaio de aprovação”, divulga Marco Poli.

Os riscos de comprar e usar produto pirata na área de iluminação são de segurança e econômico – perda de dinheiro. “Podemos elencar os seguintes aspectos com os produtos piratas: 1) segurança – choque elétrico, incêndio; 2) econômico – falta de iluminação, falha prematura, baixa luminosidade, pisca-pisca, insatisfação pela má aquisição”, esclarece Poli.

Os prejuízos que as irregularidades causam às empresas pirateadas são diversos, se destacando:

  • perda de competitividade ao arcar com custos de qualidade que o fornecedor pirata não tem;
  • perda de vendas por avaliação/decisão imprudente do varejista;
  • sinalização errada ao mercado – dando menor divulgação dos bons produtos;
  • imagem negativa a produtos de referência – são rotulados como produtos com preço abusivo. Ausência do varejista e do consumidor em demonstrar percepção positiva da qualidade.

MARCO MARTINS POLI
Diretor-executivo da ABILUX

“Tem predominado a pirataria na modalidade que não atende especificação Inmetro, tem ocorrido nas lâmpadas LED e nas luminárias de alto giro/ consumo e nas luminárias públicas.”

Para Marco Poli, as empresas fornecedoras sérias devem enaltecer a sua marca pela qualidade que apresenta, de maneira complementar à obtenção do certificado Inmetro. Adicionalmente devem apelar às autoridades para excluírem os produtos piratas do mercado e punir as empresas que atuam de forma irregular. “As empresas fornecedoras devem orientar o mercado sobre as consequências de comercializar produtos irregulares. Consequentemente, os varejistas devem prestigiar as empresas fornecedoras com bom histórico e não efetivar negócios com as empresas que atuam com produtos piratas. O varejista, quando deparar com produtos piratas, devem denunciar às autoridades”, orienta Marco Poli.

Já os consumidores devem ter mais atenção e buscar informações para eleger o produto e o fornecedor. “Deve manter o registro histórico das boas marcas e dos bons fornecedores. Evitar comprar produtos piratas e quando deparar com irregularidades colaborar e denunciar às autoridades. Devem prestigiar o fornecedor e o varejista que atuam somente com produtos regulamentados. Importante que os agentes do mercado, (empresas fabricantes, varejistas e consumidores) atuem junto com as autoridades nos programas de vigilância de produtos no mercado”, complementa Marco Poli.

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