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A Vez das Mulheres

Ilustração – Shutterstock

ELAS AINDA SÃO A MINORIA NA ÁREA ELÉTRICA, MAS DRIBLAM OS PRECONCEITOS, SUPERAM OS DESAFIOS COM BOM HUMOR E MOSTRAM QUE TÊM MUITA ‘ENERGIA’ PARA PROVAR SUA COMPETÊNCIA E HABILIDADE EM OCUPAR CARGOS OPERACIONAIS E GERENCIAIS.

Por CLARICE BOMBANA

Quando se pensa na área elétrica, a primeira imagem que vem à cabeça, depois das longas linhas de transmissão, são homens desempenhando as mais diversas funções exigidas. Afinal, a presença masculina ainda domina esse universo profissional. Entretanto, algumas mulheres vêm conquistando posição de destaque no trabalho, inclusive ocupando cargos elevados em empresas, associações e na administração pública. Vale destacar ainda o compromisso, assumido por algumas companhias, de contribuir para a prática da igualdade de gênero no mercado de trabalho.

Ser minoria na atividade exercida dentro de uma organização parece ser a regra quando se trata de mulheres em áreas tradicionalmente ligadas à engenharia, como é o caso do setor elétrico. Até pouco tempo atrás, era reservado às engenheiras cargos e ocupações de suporte aos homens, tanto em áreas operacionais como estratégicas. Essa restrição era também absorvida pelas próprias engenheiras, que não viam em si o perfil para assumir, por exemplo, postos de maior poder ou áreas com exigências de viagens constantes e dedicação mais integral ao trabalho.

Como sabemos, a Engenharia, muitas vezes, requer a presença de profissionais em áreas de risco e afastadas, geralmente consideradas insalubres. Sendo assim, existem situações de trabalho em que a profissional feminina se depara com a falta de alojamentos apropriados nos anteiros de obras, sanitários inadequados, trabalho sujo e pesado, além da necessidade de expedientes prolongados, viagens constantes e relacionamento com a família à distância. Essas circunstâncias, obviamente, acabam dando mais espaços para os engenheiros.

Com as mudanças culturais, sociais e econômicas, juntamente com a redução da desigualdade de gênero, este cenário tem apresentado mudanças. Uma maior participação das mulheres no mercado energético permite ao setor recorrer a talentos femininos inexplorados, assegurando, ao mesmo tempo, a distribuição socialmente justa das oportunidades socioeconômicas da transformação global da energia.

Essa reportagem traz alguns exemplos de casos de sucesso da figura feminina, que ascenderam nesse universo com brilho e energia. Veja, a seguir, a trajetória de mulheres que já estão imprimindo uma outra cara (literalmente) ao tradicional e conservador setor elétrico brasileiro.


Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica)

Como você vê a presença feminina no setor elétrico brasileiro? Tem aumentado?
Acredito que tem aumentado, embora ainda estejamos distantes de um equilíbrio. Na indústria de energia eólica, especificamente, percebo uma geração de mulheres fortes, determinadas e apaixonadas pela profissão. São diretoras, conselheiras, gerentes, executivas, assistentes e operárias. Há alguns anos, por exemplo, fui visitar uma fábrica de pás eólicas e me surpreendi com a grande quantidade de mulheres trabalhando na linha de montagem. Explicaram-me algo lindo: a importância dos detalhes e a necessidade de um trabalho quase artesanal para curvatura das pás eram trabalhos feitos de maneira primorosa muito mais por mulheres do que por homens. As pás que cortam nossos ares e geram nossa energia eólica são talhadas em grande parte por mãos femininas. Por essa história e por tantas outras que conheço é que enxergo um futuro muito positivo para as mulheres que quiserem investir para construir sua carreira no setor de energia, especificamente na geração eólica, da qual sou grande defensora.

Este é um setor com maior número de ressalvas à participação feminina? Por quê?
Não creio que haja ressalvas por definição. Como é uma área que no passado era fortemente especializada em engenharia, havia uma tendência natural para o gênero masculino. Mas isso mudou muito nos últimos anos, o setor se modernizou muito e se abriu para outras especialidades. Além disso, as mulheres avançaram mais fortemente para as áreas de engenharia.

Dentro do mercado elétrico, há ocupações ou cargos com mais e menos mulheres?
Não saberia apontar quais cargos tem mais ou menos mulheres, mas acredito que, de forma geral, há muito mais homens que mulheres no setor elétrico, realidade que aos poucos vem mudando. Gostaria de destacar um projeto interessante no setor chamado “Sim, elas existem”, coordenado pela Chefe da Assessoria Especial em Assuntos Regulatórios, Agnes da Costa, e a consultora Jurídica, Renata Isfer, ambas do Ministério de Minas e Energia. Uma das ações do projeto foi levar aos candidatos à presidência da República, no ano passado, uma lista com nomes de mulheres aptas a ocupar cargos de liderança no MME, nas empresas vinculadas e nas agências reguladoras.

Dentro do nicho das renováveis, por exemplo, é nítida a maior participação das mulheres. Qual a razão?
É verdade, possivelmente por ser um nicho mais recente, que já faz parte de um momento com um movimento feminista muito ativo e preocupado em aumentar a participação das mulheres. Não temos na ABEEólica um acompanhamento com números. O que tenho é muito mais uma percepção minha de cerca de 20 anos no setor de energia. Percebo que embora o número de mulheres no setor esteja crescendo aos poucos, ainda temos pouquíssimas mulheres ocupando cargos de decisão e é necessário trabalhar para que isso mude. É muito frequente que em reuniões de entidades do setor ou eventos, eu seja uma das poucas mulheres na mesa de discussão ou palestrando.

Como é conciliar a vida de executiva, esposa, mãe, filha, gestora do lar, entre as mil e uma funções da mulher moderna?
Eu tenho três filhos e, de fato, é um grande desafio, entretanto não conseguiria isso sem uma estrutura logística organizada e planejada. Eu tenho um batalhão para me dar suporte. Não gosto da figura de supermulher que faz tudo sem ajuda, isso não existe e apenas colabora para colocar ainda mais peso sobre suas costas. É uma questão de planejamento e organização, com um arsenal por trás. Por isso, faço sempre questão de dizer que me sinto privilegiada por poder ter ajuda de funcionários, de familiares, e de contar com eles em caso de viagens, por exemplo.

O que a mulher tem em sua essência e natureza que pode ajudar no desempenho da função gerencial, por exemplo?
Acredito que uma sensibilidade feminina tende a ser muito útil, mas acho fundamental aprofundar a discussão para o seguinte: esta sensibilidade é também uma característica que pode ser desenvolvida nos homens. O mais importante em uma função gerencial, ou em qualquer função, é a preparação, a qualificação, o esforço e o desenvolvimento contínuo. Tudo isso depende de estudo e trabalho. Não precisamos criar os meninos para uma coisa e as meninas para outras. Existe uma discussão muito importante no movimento feminista sobre a importância de os meninos serem criados para terem direito a expor sentimentos e não ter que responder a um determinado perfil de homem racional e machão, por exemplo. Na minha visão, precisamos fugir dos estereótipos.

Como as empresas estão vendo a participação das mulheres em cargos operacionais e gerenciais? Percebe-se um movimento pela igualdade de gêneros?
Sim, não há dúvida disso. Tem havido uma evolução muito grande neste sentido, eu diria uma revolução; principalmente com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU, as empresas estão mais sensíveis e dispostas a investir nestes objetivos, há uma clareza, um diagnóstico dos problemas e desafios a serem encarados.

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Conte, um pouco, sua trajetória profissional.
Ao fazer uma retrospectiva da minha vida, lembro-me bem que comecei a trabalhar muito cedo. Nasci e cresci numa pequena cidade do interior de Minas. Filha mais nova, com sete irmãos, quatro deles homens. Minha mãe nos criou em um formato de família, minimizando as diferenças de gênero… imagino que do contrário, criar tantos filhos seria ainda mais desafiador. Eu convivia muito com os meus irmãos de idades próximas, portanto, jogar futebol era uma coisa muito comum. Além de ir para o colégio, coisa que eu adorava, minha atividade predileta era ir para a biblioteca e lá lia de tudo, inclusive os livros de matemática, por mais estranho que isso possa parecer. Sempre fui muito estudiosa e decidi estudar economia. No meio da graduação em economia, a minha vida estava teoricamente resolvida, pois havia decidido seguir carreira acadêmica, ser professora, pesquisadora na universidade, de forma que entrei no mestrado e já emendei o doutorado. Só que a vida traz suas surpresas e te leva por caminhos inesperados e muito agradáveis, de forma que fui parar no setor elétrico. Como tese de mestrado, tratei da Reestruturação da Indústria de Energia Elétrica Brasileira, um tema totalmente novo no campo da economia, o que chamou muita atenção no mundo acadêmico e executivo, de forma que não me faltaram convites para
deixar a universidade. Em maio de 2000, já no doutorado, pesquisando para a tese, fui agraciada com o convite para trabalhar na Aneel, quando efetivamente iniciei minha carreira no setor elétrico, como economista, especialista em regulação e mercados de energia elétrica. De lá fui parar no Ministério de Minas e Energia e Ministério da Fazenda, voltando para o MME em 2003. Desde o começo na Aneel, tive a total clareza de que estava no caminho profissional certo, que me trazia muitos desafios e felicidade.

Quais os episódios marcantes dessa jornada? Já pensou em desistir?
Nunca pensei em desistir, embora tenha enfrentado momentos desafiadores, muito difíceis mesmo, mas a própria dificuldade me encanta. Eu tenho passagens que considero verdadeiramente marcantes, como a experiência no governo, durante a crise do apagão, foi um momento importante de aprendizado. Na sequência, a reforma do Setor Elétrico em 2004 no MME, quando eu participei ativamente do processo de construção de um modelo do setor, que vigora até hoje, com destaque para o modelo de leilões, copiado no mundo inteiro. Depois, a passagem por cinco anos na CCEE e a vinda para ABEEólica há oito…, momento marcante e crucial na minha carreira, quando eu abracei a causa das renováveis, ajudei a construir a indústria de energia eólica e a sua tão bem-sucedida história. Não se trata mais de um trabalho, de uma causa, de uma razão de ser. Eu simplesmente amo.

O que falar sobre o preconceito? Algum acontecimento que mereça registro?
Considero que tenho uma jornada razoavelmente longa, diante dos desafios que venci, dos trabalhos importantes que realizei em Brasília, principalmente no governo, nas instituições e nos momentos importantes do setor elétrico brasileiro. Estou na ABEEólica há oito anos e o sentimento de felicidade e satisfação com o trabalho é progressivo e permanente. Frequentemente, me perguntam se já tive algum problema por ser mulher no setor elétrico. E muitos se admiram com minha resposta negativa porque, de fato, eu particularmente nunca me senti desrespeitada por ser mulher. Compreendo todas as enormes diferenças que infelizmente existem ainda hoje e que dificultam a vida profissional das mulheres. O fato é que, no meu caso, nunca percebi nenhuma diferença por ser mulher. Ou então não percebi o porquê, além de ser mulher, era uma economista no setor elétrico, algo muito novo, e ainda muito jovem. Talvez o pacote de adjetivos não comuns para o setor elétrico tenha feito com que o tema feminino passasse ao largo. Eu sempre consegui fazer com o que o meu currículo chegasse na frente. Hoje, quando acontece de eu ser a única mulher em mesa de debates de eventos ou reunião pública, o que se tornou muito frequente é uma mulher se aproximar depois e comentar: “Como é bom ver uma mulher aqui!”. E com isso eu fui me dando conta, aos poucos, da importância de ter chegado aonde cheguei e do papel que isso tem para outras mulheres. Sinto-me profundamente honrada quando mulheres me procuram para fazer comentários deste tipo porque o fato é este: o setor elétrico é, sim, um setor ainda muito masculino e no qual há mulheres competentes e preparadas e que merecem grande reconhecimento, tanto quanto os homens. Reconhecimento é algo que não deveria ser ligado ao sexo. Eu sei disso e sempre agi assim com as pessoas com quem trabalhei, mas sei que o cenário a este respeito é complexo e ainda temos muito a avançar na luta.


Carolina Fonseca, CEO da TRON Controles Elétricos

Como você vê a presença feminina no setor elétrico brasileiro?
Eu nasci dentro do setor elétrico e desde cedo entendi a minha missão e o meu papel nesse segmento. Confesso que ao longo da trajetória sempre me senti feliz e talvez esse tenha sido o motivo de não ter parado para pensar na presença feminina. Outro fato relevante é que dentro da produção da nossa empresa 70% são mulheres e elas me fortalecem a seguir sem pensar em gênero feminino ou masculino. Acredito que a presença feminina esteja em constante evolução e que a tendência é ser ainda maior, pois vejo mulheres encantadas pelo nosso segmento e bem mais atuantes.

Este é um setor com maior número de ressalvas à participação feminina? Por quê?
As ressalvas foram conceitos criados no passado que já foram ultrapassados há anos. Entretanto, se pensarmos com ressalvas, veremos ressalvas, se pensarmos com atitude, seremos atitude. Vejo que qualquer profissional, independente do gênero, tem de entender o seu papel, alinhar expectativas da vida pessoal com a profissional e seguir focada em desafios… Assim, as ressalvas perdem todo o sentido.

Dentro do mercado elétrico, há ocupações ou cargos com mais e menos mulheres?
Comparando gerações e por diversos motivos, a mulher teve a oportunidade ou o direito de buscar pelo seu espaço há menos tempo que os homens, e isso não é privilégio de nenhum setor específico. Portanto, no setor elétrico não é diferente, mas acredito que com o passar do tempo, a ocupação ficará equilibrada.

De maneira geral, como é conciliar a vida de executiva, esposa, mãe, filha, gestora do lar, entre as mil e uma funções da mulher moderna?
Adoro responder essa pergunta. Nós precisamos rasgar alguns papéis que a antiga sociedade criou para nós e delegar outros sem sentir dor. Por exemplo, onde está escrito que é nosso papel fazer supermercado, se temos outros meios de resolver essa tarefa? Onde está comprovado que ir ao colégio dos filhos todos os dias influencia no rendimento escolar? Devemos ter em mente o que é saudável para manter o nosso equilíbrio e de nossa família, pois jamais o tempo vai nos possibilitar resolver tudo, e no dia seguinte recomeça tudo outra vez. Assim como meu pai, fundador da marca Altronic da TRON, sigo ensinando meus filhos com exemplo e o trabalho me ajuda nessa tarefa. Tenho uma mãe presente que me auxilia com a educação dos meus filhos e tive a sorte de casar com um ser humano que admira o que faço. Além de tudo isso, nas tarefas do lar tenho mulheres de igual valentia que fazem do seu trabalho o sustento de uma família. Tudo isso junto me ajuda a equilibrar os meus pratos e seguir focada na vida executiva com leveza. Em relação à mulher moderna, conto em segredo: não sou muito do mundo virtual, então no meu tempo livre jogo tênis com minha família, tomo um café com as amigas ou me divirto vendo um bom filme.

O que a mulher tem em sua essência e natureza que pode ajudar no desempenho da função gerencial, por exemplo?
Eu teria muitos exemplos para responder essa pergunta, mas talvez o mais ilustrativo seja o presente que a natureza nos possibilita quando exercemos o papel de mãe. Com essa experiência, temos um verdadeiro treinamento gerencial com nossas emoções, o que nos prepara para os desafios de uma vida inteira.

Como as empresas estão vendo a participação das mulheres em cargos operacionais e gerenciais? Percebe-se um movimento pela igualdade de gêneros?
Aqui em nossa empresa não pensamos num profissional considerando igualdade de gênero. Os cargos são disponibilizados para candidatos competentes, independentemente de seu gênero. Hoje temos um time bem diversificado com homens e mulheres em idades e experiências diferentes, isso é o que consideramos de maior relevância.

Relate, resumidamente, sua trajetória profissional.
Desde garotinha senti que eu estava sendo preparada. Aos 15 anos comecei vendendo roupas no trabalho da minha mãe, e desde então ficou clara minha vocação comercial. Fiz faculdade de administração e entrei muito cedo para trabalhar na empresa da família. O ponto de partida fez toda a diferença na minha formação e veio de uma conversa que tive com Deus, onde Ele me disse: “Se der certo para o todo, dará certo para você também, e estarei sempre ao seu lado”. No decorrer dos anos fui me profissionalizando, mas nunca esqueci das primeiras lições. Assim foram se passando os anos e hoje com 23 anos de carreira, posso dizer que continuo escrevendo minha trajetória baseada nos ensinamentos que escutei.

A família apoiou sua carreira?
De formas diferentes, sempre tive o apoio da minha família. Tive a proteção do meu pai, a perseverança da minha mãe e o ombro amigo de meu parceiro. Não posso esquecer dos meus irmãos que fizeram parte desse contexto de diferentes formas. Tenho um sócio irmão que fez toda a diferença, e uma irmã que nas horas que chamei estava lá para me ajudar.

O que falar sobre o preconceito? Algum acontecimento que mereça registro?
Nunca sofri preconceito, sempre levei comigo meus objetivos, além de uma frase que sempre me acompanhou: “Quando um soldado sabe onde quer chegar, os outros abrem passagem”. Sempre fui respeitada por onde passei.

O machismo ainda está muito presente no mercado de trabalho?
Sou filha de um pernambucano valente, que por natureza nasceu machista. Aí, a vida inverteu os papéis e o presentou com uma filha que adora o setor elétrico. No decorrer dos últimos 23 anos, eu vi o machismo dentro da minha casa, no meu dia a dia. Mas o que realmente é o machismo? Tratei o machismo como mais uma adversidade, um obstáculo ou desafio, pois, ao fim de tudo, o que fica são os resultados e isso é indiferente ao gênero.


Viviane Nunes, diretora-executiva do Sindicato das Indústrias de Refrigeração, Aquecimento e Tratamento de Ar no Estado de São Paulo (Sindratar-SP), diretora de Relações Institucionais do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada – Infraestrutura (Sinicon) e presidente da Women in Ashrae (WIA) Brasil Chapter

Como você vê a presença feminina no setor elétrico brasileiro?
De acordo com informações da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), a presença feminina no setor elétrico já foi bem menor. Basta fazer um comparativo com as empresas públicas e privadas há 40 anos. Atualmente, de 20% a 40% do contingente de trabalho é composto por mulheres. Em áreas como direito e trading de energia, o percentual é ainda maior, assim como em posições de liderança de entidades e associações de classe. E a tendência é aumentar, na medida em que há o crescente interesse e participação das mulheres nas áreas de engenharia, economia, administração, direito, relações internacionais e atividades técnicas. No Senai, por exemplo, destaco a importante participação das mulheres nas áreas de qualidade e laboratório. Um setor é feito por diversos profissionais, portanto, não se pode esquecer das atuações também nas áreas de humanas, como recursos humanos e treinamento, com participação das áreas de psicologia e sociologia.

Este é um setor com maior número de ressalvas à participação feminina? Por quê?
Pode ter havido algum dia, como em qualquer outro setor. Mas, hoje, não mais. A dedicação e habitual integridade das mulheres marcam sua participação expressiva nas áreas de trading, legal, compras, contato com o consumidor, entre outras. É importante esclarecer que ressalvas e cuidados devem permear as áreas de alto risco, como os serviços de campo e nas linhas de transmissão de alto tensão.

Existe profissional eletricista mulher?
Sim. A indústria montadora de componentes, produtos e quadros elétricos, por exemplo, apresenta um quadro praticamente feminino, porque as mulheres são mais detalhistas e delicadas. Já nos serviços de leitura, manutenção de redes externas, são menos presentes. Segundo o Instituto Senai de Tecnologia em Energia, existem mulheres em todas as atuações profissionais do setor elétrico. E dentro dos cursos profissionalizantes da área elétrica do Senai, elas representam cerca de 12% das turmas.

Existe profissional de instalação e manutenção de ar-condicionado?
Sim, existem. A Ashrae (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers) é uma associação global com mais de 57 mil membros, presente em 132 países. Foi fundada em 1894 por engenheiros, em Nova York, com a missão de desenvolver o mercado de ar condicionado e refrigeração e promover um mundo mais sustentável. Para isso, a entidade financia projetos de pesquisa, oferece programas de educação continuada, desenvolve e publica normas técnicas e guias. Entre os programas, criou o Women in Ashrae (WiA), que tem como proposta garantir a presença feminina no setor de AVAC-R (Aquecimento, Ventilação, Ar-Condicionado e Refrigeração). Existem profissionais femininas nas áreas de projeto, instalação e manutenção de climatização e refrigeração. A participação ainda é pequena, mas crescente. Para se ter uma ideia, dos 260 mil alunos que a Escola Senai Oscar Rodrigues Alves (SP) formou ao longo de seus 70 anos, pouco mais de 120 são mulheres. Carmosinda Santos, técnica muito conhecida no setor de AVAC-R, também tem levantado a bandeira e ajudado a identificar as mulheres ‘refrigeristas’. As empresas de manutenção já estão montando equipes femininas para atender públicos mais exigentes e mais específicos e alguns fabricantes estão oferecendo cursos de qualificação profissional com foco nas mulheres.

De maneira geral, como é conciliar a vida de executiva, esposa, mãe, filha, gestora do lar, entre as mil e uma funções da mulher moderna?
Vivemos em um mundo contemporâneo, com muitas facilidades tecnológicas. Muitas coisas consigo fazer à distância, utilizando a Internet das Coisas (IoT). Obviamente, não é fácil, mas é possível. É preciso ter muita força de vontade, dedicação e, acima de tudo, familiares e equipe de trabalho comprometidos e compreensivos. Seguindo esse caminho, o resultado é muito gratificante.

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O que a mulher tem em sua essência e natureza, que pode ajudar no desempenho da função gerencial, por exemplo?
Uma única palavra: sensibilidade.

Como as empresas estão vendo a participação das mulheres em cargos operacionais e gerenciais? Percebe-se um movimento pela igualdade de gêneros?
As empresas do setor de climatização e refrigeração estão começando a contratar mulheres para cargos operacionais, como soldadoras, refrigeristas, mecânicas, técnicas, auxiliares mecânicas, engenheiras (obra, manutenção, campo), tecnólogas. Em cargos gerenciais ou de escritórios, a presença já é maior. A questão não é de igualdade de gênero, mas, sim, de oportunidade de trabalho.

Hoje já há empresas comprometidas publicamente com os Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU. O que tem levado a isso?
No setor de climatização e refrigeração, diversas empresas estão seguindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e assinaram a Agenda 2030 da ONU. Ao final de 2018, o Ashrae Brasil Chapter, em parceria com o Sindratar-SP, identificou as mulheres pioneiras no setor. Foram localizadas 33 profissionais, que receberam o Prêmio ‘Agora é que são Elas – Mulheres no AVAC-R. A partir disso, as ‘meninas’ começaram a sair da caixinha e estamos buscando parcerias e levantando dados para ter métricas corretas.

Fale um pouco sobre sua trajetória profissional.
Atualmente sou diretora executiva do Sindratar-SP e diretora de relações institucionais do Sinicon. Fiz cursos de especialização em Petróleo, Gás, Biocombustíveis, Eficiência Energética em Sistemas de Climatização e Relações Institucionais. Sou formada em Comunicação Social e estou terminando a faculdade de Direito. Trabalhei anos com Comércio Exterior, focado na América do Sul, e assessorei diversas associações e entidades de classe, além de governos. Também sou sócia da VN Comunicação.

A família apoiou sua carreira? Obstáculos?
Sim. Minha família apoiou muito. Demais! Existiram diversos obstáculos ao longo do caminho, mas consegui superar todos. O pior deles foi ter meus dois filhos doentes e internados ao mesmo tempo.

Quais os episódios marcantes dessa jornada? Já pensou em desistir?
Tenho episódios marcantes, mas posso não dizer! (risos). Sobre desistir, sim, já pensei, mas daí me lembro que tenho família e colaboradores que dependem diretamente de mim.

O que falar sobre o preconceito? Algum acontecimento que mereça registro?
Existe e não há como negar, mas há como superar. Sabe como? Mostrando competência. Algumas vezes não me chamavam para reuniões porque sou mulher. Mas, quando percebiam que eu realmente dominava o tema, não havia como me deixar de fora. É preciso ter segurança nas ações! Só assim se conquista a vitória.

O machismo ainda está muito presente no mercado de trabalho?
Sim, porém, é superável. No meu caso, com muito trabalho e muito bom humor.

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Citar fatos e curiosidades “femininas” de sua posição e experiência profissional.
Sempre fui muito ousada. Um dia pedi um presidente da República em casamento. Foi muito engraçado! Ele não aceitou, obviamente! Mas tornou-se um grande amigo.


Schneider Electric: práticas de igualdade de gêneros

A empresa anunciou recentemente que é a primeira multinacional a atingir 100% de compromisso com os Princípios de Empoderamento das Mulheres (Women’s Empowerment Principles, WEPs), da ONU, em toda sua equipe de liderança global. Além do chairman e CEO global, Jean-Pascal Tricoire, todos os presidentes dos países em mercados com pelo menos 10 colaboradores assinaram os WEPs, comprometendo a empresa com suas práticas de igualdade de gêneros e inclusão.

Desenvolvido em 2010, por meio de uma iniciativa conjunta da ONU Mulheres e do Pacto Global da ONU, os WEPs consistem em sete princípios que servem como diretrizes para as empresas promoverem igualdade de gêneros e empoderamento das mulheres no local de trabalho, no mercado e na comunidade.

Os quatro primeiros princípios encorajam o envolvimento da liderança por meio de metas da empresa, proporcionando igualdade de oportunidade e tratamento para mulheres e homens. De maneira mais ampla, os princípios promovem parcerias com mulheres empreendedoras, práticas de marketing respeitosas das mulheres e liderança nas comunidades locais por meio de iniciativas de transparência, capacitação e advocacy.

Em apoio a esses esforços, a companhia implantou uma estrutura rigorosa de equidade salarial e políticas de trabalho flexível e de licença familiar global. A política global de licença para famílias, lançada em 2018, foi implementada em 59 países, estendendo os benefícios aos pais e licença de luto para 75% da força de trabalho da empresa, com a intenção de cobrir 100% do quadro até 2020. Da mesma forma, 92% da força de trabalho é coberta pela estrutura de igualdade salarial, com a meta de atingir 95% dos funcionários até 2020.

Mais mulheres

Alguns segmentos do setor elétrico estão mais permeáveis à admissão de mulheres em situações de destaque, como é o caso da comercialização e das energias renováveis. Em várias comercializadoras são encontradas mulheres em funções gerenciais. Uma das razões que explica essa configuração é o fato de a comercialização não ser monopolizada pelas áreas da Engenharia (nas quais predominam os homens), absorvendo profissionais egressos de outras áreas, como Administração, Economia, Finanças, Direito e consultorias, onde a presença de mulheres já está amplamente disseminada.

Um estudo apresentado pela Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) mostra que as mulheres ocupam cerca de 32% dos empregos na área. O percentual é maior que no setor de energia em geral, de 22%, e que na área de petróleo e gás, também de 22%. A pesquisa reuniu respostas de cerca de 1.500 homens, mulheres e organizações que trabalham na área. Os empregos na área de renováveis saíram de 7,1 milhões em 2012 para 10,3 milhões em 2017 e devem quase triplicar até 2050

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Outro ponto abordado é que o engajamento de mulheres como agentes na implantação de soluções de energia renovável fora da rede (off-grid) é conhecido por melhorar a sustentabilidade e maximizar os benefícios socioeconômicos. Dos entrevistados para o levantamento, 75% das mulheres percebem a existência de barreiras à entrada e ao avanço delas no setor, enquanto apenas 40% dos homens dizem o mesmo. Outro dado que chama atenção é que 60% dos entrevistados do sexo masculino assumem igualdade salarial entre mulheres e homens contra apenas 29% das mulheres entrevistadas. Segundo a pesquisa, a maior diversidade de gêneros traz benefícios significativos e a adoção de políticas e perspectivas de gênero podem ajudar a aumentar o engajamento das mulheres.

Como barreiras para a entrada das mulheres no setor, o estudo cita a falta de oportunidades, normas culturais e sociais, práticas de contratação predominantes e ausência de metas de diversidade. Já quando relaciona as barreiras para o seu desenvolvimento, aparecem a falta de habilidades e qualificações requeridas, a falta de treinamento, a falta de creches e a falta de flexibilidade no local de trabalho. Ainda de acordo com o estudo, uma maior participação das mulheres no setor asseguraria um ajuste na distribuição das oportunidades socioeconômicas da transformação global
da energia.

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Damas de Energia

Há nove anos o evento “Damas de Energia” reúne mulheres que atuam no setor elétrico com a finalidade de promover interação e também facilitar os negócios. A ideia partiu de Bruna Tiziani, head trader da Gama Energia, comercializadora que faz parte do Grupo IBS Energy. À frente do projeto que ganha cada vez mais adesão das profissionais que atuam no segmento, Bruna conta que no início não havia tantas mulheres no mercado de energia como hoje e que o número de adeptas foi aumentando a cada ano e atualmente são mais de 200 participantes no grupo de várias partes do país. “Nos reunimos a cada três meses em um almoço, ocasião que possibilita trocar experiências”, revela Bruna. O evento ganhou destaque no mercado e recebe o apoio da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel).

A Gama Energia participou de um dos encontros, promovendo ação para presentear as participantes com sorteio de Spa Day. A diretora de RH do Grupo IBS Energy, Lucelene Dias, diz que pretende intensificar a atuação da Gama Energia com a realização de palestras para levar informação e agregar conhecimento ao público que prestigia os encontros. “É um evento que já foi incorporado ao setor elétrico por ser reconhecidamente importante”, revela.

Bruna afirma que o encontro atrai profissionais de outros estados que vêm a São Paulo para participar e que se tornou um grupo de estudos, reunindo mulheres que atuam em diferentes áreas do setor elétrico. Sobre o nome “Damas de Energia”, Bruna diz que foi inspirado no grupo de vôlei de sua mãe, chamado “Damas do Ouro”, e que segue o mesmo conceito: interação, troca de experiências e outras atividades, formando uma comunidade unida e com disposição para tratar de vários assuntos ligados ao esporte que praticam e também em outras áreas da vida.

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