NBR 5419 – Norma revisada

🥇Matéria de Capa da Edição 243 da Revista Potência

Reportagem: Paulo Martins

Nova versão da ABNT NBR 5419:2026 conta com 557 páginas, com texto mais compreensível e completo.

A norma ABNT NBR 5419:2026 – Proteção contra Descargas Atmosféricas passou por uma revisão completa, com base na IEC 62305. O novo texto acaba de ser publicado e, segundo os especialistas da área, ficou mais compreensível, mais completo e mais claro.

O novo texto foi publicado no dia 10 de março. Jobson Modena, coordenador da comissão da ABNT que revisou a NBR 5419, informa que não saíram as datas para a prescrição da antiga norma e a validade do novo texto. No momento estão havendo negociações junto à ABNT para que se estabeleça um prazo para adaptação do mercado.

Jobson diz que a ideia sempre foi melhorar a condição de adaptabilidade e de compreensão da NBR 5419 em relação ao mercado. “O início dessa revisão teve o objetivo principal exatamente de transformar essa norma em uma norma mais adaptável”, conta.

Jobson entende que a revisão era necessária neste momento, pois fazia 11 anos que a versão antiga tinha sido publicada. “Havia vários aspectos, principalmente relacionados com a parte 2 e a parte 3 que estavam defasados da IEC e também do nosso mercado. Muitas dúvidas em relação ao texto. Precisava fazer essa revisão, principalmente para deixar o texto mais homogêneo, mais amigável com o usuário”, frisa.

Hélio Sueta, secretário da comissão da ABNT que revisou a NBR 5419 reforçou que a última versão da norma era a de 2015 e observou que a ABNT indica como ideal a realização de revisões a cada 5 anos. A IEC publicou uma versão da IEC 62305 em 2024 (revisando a versão de 2010), sendo que a NBR 5419:2015 foi baseada nas versões 2006 e 2010 da IEC 62305. A Comissão de Estudos CE 64.10 da ABNT trabalhou nesta revisão por quase 10 anos. “A revisão da norma foi, sim, necessária, e o texto antigo está, sim, defasado com as normas internacionais. O texto da NBR 5419:2026 está bem mais detalhado e melhor explicado que o de 2015, que já foi uma verdadeira revolução no assunto – a versão anterior, a de 2005, tinha 43 páginas em um caderno único e as 4 partes da versão 2015 têm mais de 300 páginas”, lembra.

A versão de 2026 nas suas 4 partes possui 515 páginas de requisitos, mais 42 páginas de capas, sumários, prefácios, escopos em inglês e introduções, totalizando 557 páginas. Segundo Hélio Sueta, quem ainda não viu a versão de 2026 não precisa se assustar com o grande número de páginas, pois na parte 2 foram inseridas 175 páginas correspondentes a uma lista de municípios brasileiros e o seu respectivo Ng, desta forma, pode-se considerar que as 4 partes somam 340 páginas. “Não somente a quantidade de páginas aumentou, mas a nova versão trouxe muitas novidades (como por exemplo, a frequência de danos e novos mapas de densidade de descargas atmosféricas para terra por km² por ano), mas principalmente um texto mais compreensível e completo”, considera Hélio Sueta.

Na opinião de Jobson Modena, o novo texto da norma deverá produzir grande impacto no mercado pelos próximos meses, em função das alterações promovidas.

Segundo informações do COBEI, a NBR 5419 é a segunda norma ABNT mais vendida na área elétrica, perdendo apenas para a NBR 5410.

Hélio Sueta observa que a NBR 5419 fornece os requisitos para a proteção de estruturas contra as descargas atmosféricas, o que significa um mercado gigantesco, uma vez que a norma define requisitos desde para uma casinha no campo como grandes estruturas, como usinas nucleares e refinarias de petróleo. “Os impactos iniciais são para as estruturas novas, em projeto e em construção, e nas inspeções e manutenções das estruturas existentes, apesar de que nessas, a aplicabilidade da nova versão será nas estruturas onde ocorreram mudanças e reformas que possam interferir na proteção contra as descargas atmosféricas. Mudanças no uso da estrutura, por exemplo, um galpão de produtos de baixa combustão, é muito diferente se ele se tornar um galpão para armazenamento de fogos de artifício. No geral, o maior impacto está na metodologia da análise de risco, onde as mudanças foram maiores”, compara Hélio Sueta.

JOBSON MODENA
Engenheiro Eletricista, Diretor da GUISMO Engenharia

“Precisava fazer essa revisão, principalmente para deixar o texto mais homogêneo, mais amigável com o usuário.”

Jobson Modena acredita que não haverá grandes problemas para adaptação ao novo conteúdo da norma. “A ideia foi fazer um texto mais suave e direto buscando exatamente melhor compreensão”, justifica.

Hélio Sueta diz que à exceção de alguns pontos específicos, no geral, os textos da nova revisão são melhorias dos textos anteriores. “Acredito que os usuários da norma não terão grandes dificuldades, muito ao contrário, acreditamos que ao ler os novos textos, conseguirão tirar algumas dúvidas que já tinham na versão anterior. Os novos pontos, por exemplo, frequência de danos, deverão ser analisados, porém, quem já tinha familiaridade na versão anterior não terá dificuldade nas novidades desta versão”, destaca.

Objetivos e importância da norma

De acordo com Jobson Modena, a norma visa proteger estruturas, instalações elétricas dentro das estruturas e pessoas dentro das estruturas dos efeitos dos raios. “O objetivo da norma é de normalizar, regrar e padronizar projeto, instalação, inspeção, manutenção e todos os serviços ligados à proteção contra descargas atmosféricas”, sintetiza.

Hélio Sueta detalha que a NBR 5419 de 2026, assim como a de 2015, tem 4 partes: a Parte 1, Princípios Gerais; a Parte 2, Análise de Risco; a Parte 3, Danos físicos a estruturas e perigos à vida e a Parte 4, Sistemas elétricos e eletrônicos internos à estrutura.

De uma forma geral, o objetivo das quatro partes é estabelecer os requisitos para a proteção de estrutura e seu conteúdo contra as descargas atmosféricas. No entanto, cada parte foca em uma parte específica da proteção: a parte 1 foca na ameaça da descarga atmosférica, mostrando os principais parâmetros da descarga, como simular em laboratórios e em computadores e mostrando os tipos de danos nos componentes da proteção. A parte 2, mostra detalhadamente a metodologia da análise de risco onde, analisando os parâmetros da estrutura a ser protegida, calcula-se os riscos e a frequência de danos nos equipamentos ou sistemas, quando da ocorrência de uma descarga atmosférica. A parte 3 apresenta o Sistema de Proteção contra Descarga Atmosférica (SPDA), com os subsistemas de Captação, Descidas e Aterramento, além da verificação das distâncias de segurança e metodologia para equipotencialização. Finalmente, a parte 4 foca na proteção dos sistemas elétricos e eletrônicos no interior das estruturas. Os requisitos para um sistema coordenado de DPS (Dispositivo de Proteção contra Surtos) e outras Medidas de Proteção contra Surtos (MPS) que aparecem na ocorrência de uma descarga atmosférica.

Jobson Modena observa que a norma tem grande importância na proteção pessoal (restrito a pessoas dentro da estrutura) e patrimonial, na proteção contra descargas atmosféricas. “A importância é fundamental na proteção contra a descarga atmosférica no país e tem, sim, uma grande abrangência em toda a parte externa da estrutura, indo até os equipamentos ligados na última tomadinha da instalação elétrica, desde que se queira protegê-los contra descargas atmosféricas”, frisa.

Para Hélio Sueta, atender à norma NBR 5419 é preservar vidas, estruturas e equipamentos. Uma descarga atmosférica atingindo uma estrutura; algum ponto próximo à estrutura; alguma linha (energia ou sinal) que entra ou sai da estrutura e mesmo perto de uma linha, pode iniciar incêndio, explosões, choques elétricos, quebra de materiais (pedaços de concreto, por exemplo), fusão de materiais, elevação de temperatura perigosa em pontos da estrutura. “No interior e nas proximidades de uma estrutura não protegida podem morrer pessoas, seja por choque elétrico (tensões de toque, de passo, descargas laterais) ou por incêndio, ou pelos outros efeitos, tais como líder ascendente não conectado, descarga direta, barotrauma, etc”, enumera Hélio Sueta.

Na opinião de Jobson Modena, a norma NBR 5419 está sendo seguida pelo mercado de uma forma interessante, mas menos do que se espera. “Vem crescendo a conscientização da utilização da norma, mas o trabalho ainda é árduo. Ainda temos muito pela frente em divulgação, em ensino para fazer as pessoas entenderem que precisam usar a norma”, conclui.

Jobson observa ainda que a NBR 5419 só é de uso obrigatório porque existem leis que ‘chamam’ a norma como documento complementar. “Existem regulamentos técnicos, existem outros documentos legais que fazem da NBR 5419 o seu pilar técnico e, com isso, acabam fazendo com que seguir a NBR 5419 seja obrigatório”, reforça.

Hélio Sueta entende que a NBR 5419 é uma norma muito conhecida e muito utilizada. Nem sempre utilizada corretamente, mas muito utilizada principalmente no segmento industrial, como também nas edificações multifamiliares e comerciais. “Muitos cursos já apareceram no mercado para auxiliar os usuários, principalmente em relação às novidades. É muito importante seguir a norma detalhadamente para implantar a melhor proteção possível”, orienta.

Hélio Sueta conta que em nível nacional, a NR-10 que é a Norma Regulamentadora do Ministério de Trabalho e Emprego para trabalho com eletricidade, indica a proteção de estruturas que tenham uma potência instalada superior a 75 kVA para constar no Prontuário das Instalações Elétricas. O Corpo de Bombeiros, em nível estadual, também indica a instalação da proteção para fins de obtenção do AVCB. A nível municipal, muitos municípios possuem legislação específica indicando a proteção contra as descargas atmosféricas. “Desta forma, apesar da NBR 5419 não ser uma lei, e sim uma norma técnica, muitas leis a chamam e assim a torna com força de lei”, explica Hélio Sueta.

HÉLIO SUETA
Engenheiro Eletricista, Mestre e Doutor pela Escola Politécnica da USP

“Não somente a quantidade de páginas aumentou, mas a nova versão trouxe muitas novidades, mas principalmente um texto mais compreensível e completo.”

Resumo das mudanças inseridas na NBR 5419 após revisão

O texto foi praticamente reescrito com uma linguagem mais direta e com explicações importantes para cada requisito. De uma forma geral, pode-se citar como principais mudanças:

  • Cada parágrafo é numerado para uma melhor identificação;
  • No escopo de cada parte uma explicação importante da aplicabilidade da norma conforme a seguir: “Esta Parte da ABNT NBR 5419 se aplica a:
    • novos projetos e execuções de proteção contra descargas atmosféricas (PDA);
    • reformas em instalações de proteção contra descargas atmosféricas existentes;
    • quando já existir uma proteção contra descargas atmosféricas instalada e houver alteração de uso ou nas características construtivas ou de uso da estrutura, da edificação, ou do projeto da instalação elétrica, que possa afetar a referida proteção.”
  • Os termos e definições são citados nas 4 partes da norma e foram aumentados (137 termos);
  • A PARTE 2 chamava “Gerenciamento de risco” e agora “Análise de risco”;
  • A divisão das casas de moradia em residências em estrutura robusta ou simples;
  • Mudanças nos tipos de perdas: ficaram L1 e L3 sendo que L4 ficou em um anexo informativo e L2 foi substituído por F (frequência de danos);
  • Algumas mudanças na tolerância em algumas tabelas da parte 1 (por exemplo, na tabela C.1 e na C.3);
  • Complementação de tabelas com a inclusão do aço coberto por cobre (Tabelas D. 2 e D.3);
  • Inclusão de novos conceitos: efeitos eletro- hidráulico, ionização do solo;
  • Mudança no cálculo das correntes de surto em diferentes pontos da instalação;
  • Na parte 2, o conceito de Frequência de danos: ”A frequência de danos, definida nesta Norma como o número anual de danos em uma estrutura devido a descarga atmosférica, depende de:
    • o número anual de descargas atmosféricas que influenciam a estrutura;
    • a probabilidade de eventos prejudiciais por uma das descargas atmosféricas que influenciam a estrutura.”
  • Na parte 2, os Riscos a serem verificados: R1 e R3 com R4 opcional e R2 virou F
  • Inclusão de um novo fator: o Fator Rs referente ao tipo de estrutura – Simples ou Robusta;
  • Na nova versão não tem o Anexo E com os exemplos de análise de risco;
  • No Anexo F, grandes diferenças com a mudança do Mapas de Ng e com a inclusão de uma lista de todos os municípios com seus respectivos Ng;
  • Na parte 3, a exclusão da Tabela 1 sobre a relação entre nível de proteção e classe de SPDA (não tem mais Classe de SPDA);
  • Na Tabela 3 sobre espessura mínima de chapas metálicas, explicação melhor considerando perfuração mas a possibilidade de pontos quentes;
  • Inclusão de uma nova Tabela com elevações máximas de temperatura (Tabela 4);
  • Retirada da Nota da Tabela sobre a distância entre os condutores de descida;
  • Fim da possibilidade de utilização de 20% do comprimento do anel na superfície do solo;
  • Consideração da existência de condutor de cobre nu dentro do concreto armado;
  • Atualização das Tabelas de materiais (Tabelas 7 e 8);
  • Priorização do uso da distância de segurança em relação à equipotencialização para descargas atmosféricas.
  • Novos desenhos para verificação das distâncias de segurança;
  • Fica claro a não necessidade da medição de aterramento;
  • Obrigatoriedade de um Plano de inspeção e manutenção;
  • Fim da obrigatoriedade da inspeção semestral;
  • Melhoria nos textos de instalações em áreas classificadas;
  • Ensaio de continuidade elétrica bem mais detalhado;
  • Melhor detalhamento na definição e criação das ZPR (Zonas de Proteção contra Raios);
  • Documentação das MPS com exigência ampliada e mais clara;
  • Nova Tabela com valores de Uw;
  • Melhoria do Anexo sobre Sistema coordenado de DPS.

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