Coração da instalação

Produtos conhecidos e tradicionais da área elétrica, quadros de distribuição muitas vezes são negligenciados pelos eletricistas no ato da instalação.

O termo já é um tanto clichê na área elétrica, mas nunca é demais repetir: ‘O quadro de distribuição funciona como o coração de uma instalação elétrica predial’. Portanto, desde o seu dimensionamento, ele deve ser tratado com cuidado e atenção. Cuidado que também deve se estender à escolha do melhor produto para cada situação, inclusive no que tange à sua qualidade e design.

Como ressalta Roberto Aimi, diretor da Tramontina Eletrik, o quadro de distribuição é o início de uma distribuição elétrica correta e segura. Isso porque ele é o componente responsável por abrigar dispositivos de proteção (e/ou de manobra), e a conexão de condutores elétricos interligados a estes elementos, com a finalidade de distribuir a energia aos diversos circuitos da edificação.

“É no quadro de distribuição onde se reúnem e partem todos os cabos do imóvel: para as tomadas, lâmpadas, chuveiros, etc. É nele também que se dividem as cargas elétricas, ou seja, onde se decide quanto cada condutor pode suportar (tomada da cozinha, aparelhos elétricos, geladeira, micro-ondas, etc.) sem colocar em perigo a segurança da instalação”, explica Aimi, que completa: “O quadro de distribuição deve ser dimensionado por um engenheiro da área elétrica, devido às necessidades das capacidades de amperagem e detalhes técnicos necessários para suportar os equipamentos em cada projeto elétrico, como disjuntores, DR, DPS”.

Um aspecto relevante no dimensionamento é que, normalmente, os quadros não seguem um padrão definido, sofrendo alterações de fabricante para fabricante. Entretanto, a norma ABNT NBR 5410 – Instalações Elétricas de Baixa Tensão determina que todos os quadros de distribuição devem ser especificados com capacidade de reserva que permita futuras ampliações.

Quanto à matéria-prima empregada na fabricação dos quadros, hoje predominam os compostos plásticos no Brasil e no mundo. Entre eles, normalmente são utilizados polímeros como ABS, PVC, PS e PP. E, em menor escala, ainda são comercializados quadros metálicos.

Outra variação a ser considerada no dimensionamento e compra dos produtos é que existem os modelos de embutir e sobrepor. Atualmente, os produtos de embutir são os mais vendidos. Esse tipo de quadro normalmente é utilizado em novas obras ou reformas onde a condução de cabos já transcorra de maneira embutida. O modelo de sobrepor, por sua vez, é mais utilizado em pequenas reformas em locais onde não se pode ou não se deseja quebrar a parede, em instalações temporárias ou onde a passagem de cabos seja aparente.

A escolha entre o modelo de embutir e o de sobrepor também tem a ver com o lado estético. E, nesse sentido, uma evolução relevante observada nos últimos anos ocorreu no design das peças. O objetivo dos fabricantes, no caso, é tornar os quadros mais ‘bonitos’, de modo que eles se integrem ao ambiente com mais harmonia.

VISUAL
Atualmente, os quadros de distribuição têm design diferenciado, que facilita sua integração à decoração do ambiente.

Aqui cabe um alerta. O quadro de distribuição não pode ser instalado em locais de difícil acesso. E isso os eletricistas devem ter como regra, sem negociação, mesmo que o dono do imóvel insista em ‘esconder’ o produto em um armário, por exemplo, para não interferir no visual de sua casa. Quando for possível, e sempre de acordo com a norma de instalação, o quadro pode ser aplicado em áreas de pouca circulação para não interferir na decoração dos ambientes. Mas essa deve ser uma escolha técnica e não apenas de ‘bom gosto’.

“Muitas vezes, o quadro é visto como um produto que interfere na decoração e por isso é instalado em local errado, o que pode causar acidentes futuros. O profissional que vai instalar deve sempre priorizar a segurança das instalações e explicar ao cliente que, atualmente, os quadros de distribuição têm designs diferenciados que podem fazer parte da decoração sem atrapalhar”, ressalta Ricardo Martucchi, engenheiro eletricista da Steck.

Ainda na linha da aparência, uma dica no ato da compra do produto é pesquisar entre os diversos modelos disponíveis no mercado. Há situações em que um mesmo perfil de quadro (com as mesmas características técnicas e de capacidade) pode ser encontrado em diferentes designs, alguns mais simples, outros mais sofisticados. Outro aspecto a ser considerado é se o produto tem proteção contra raios ultravioleta para evitar o amarelamento ao longo do tempo.

Mas o visual é apenas um ponto na escolha dos produtos. Em entrevista recente para a Revista Potência, Luis Valente, presidente da Steck, destacou que, independentemente da utilização, os quadros de distribuição devem possuir um grau de proteção adequado à necessidade do ambiente onde serão instalados, considerando aspectos como a proteção dos frequentadores do local contra eventuais choques elétricos e a proteção dos dispositivos internos contra a invasão de pó e líquidos. Normalmente, o padrão para os quadros plásticos de distribuição para uso interno é o grau de proteção IP 40, que protege contra a penetração de corpos sólidos acima de 1 mm de diâmetro, mas não protege contra a entrada de água.

O mercado

No Brasil, o mercado de quadros de distribuição elétrica confeccionados em plástico é extremamente disputado. Fato que leva os principais players a investirem continuamente na melhoria dos produtos e na criação de novas soluções para se diferenciar frente a concorrência.

Atualmente, estima-se que o setor seja disputado por cerca de 20 empresas que mantêm produção no próprio País. Não há um número oficial quanto ao tamanho do mercado, mas algumas estimativas dos fabricantes indicam que essa área pode movimentar de R$ 60 milhões a R$ 80 milhões por ano.

Produto às vezes é subestimado

Apesar do quadro de distribuição fazer parte do dia a dia do eletricista, pode-se afirmar que nem sempre esse profissional lhe dispensa a devida atenção. Em alguns casos, fica evidente que o instalador chega a subestimar a sua importância e, consequentemente, acaba cometendo erros ‘bobos’.

“Em alguns casos, os profissionais acabam não dando a importância necessária para os quadros de distribuição. Acabam instalando, por exemplo, os produtos para a proteção em locais inadequados que, além de comprometerem a função destes produtos, podem causar acidentes”, alerta Ricardo Martucchi (foto), da Steck.

Ricardo Martucchi:
“Muitas vezes, o quadro é visto como um produto que interfere na decoração e por isso é instalado em local inadequado, o que pode causar acidentes futuros”.

Na mesma linha, Roberto Aimi, da Tramontina Eletrik, adverte que os profissionais com formação técnica em eletricidade sabem da importância da instalação do quadro de distribuição, mas, no dia a dia, acabam simplificando a sua instalação e, em alguns casos, subestimando a importância de componentes como DR, DPS, disjuntores e barramentos, entre outros.

Resultado: a instalação elétrica pode se tornar insegura, mesmo quando o quadro aplicado tem bom nível de qualidade. “Não adianta ter um quadro de boa qualidade se ele não for bem instalado. A montagem e ligação elétrica dos componentes são fundamentais para que não ocorram acidentes. Existem muitos casos no mercado em que os produtos são de boa qualidade, mas o serviço de mão de obra não, colocando em risco a segurança da instalação elétrica”, comenta Martucchi.

E ele completa: “Os principais erros são a instalação em local inadequado, cálculo na quantidade de disjuntores sem prever espaço reserva, erros na montagem que podem provocar sobreaquecimentos e, consequentemente, acidentes graves”.

Roberto Aimi cita ainda como erros comuns a não adequação do quadro à instalação elétrica, quadros de distribuição que não atendem às especificações técnicas e a não observância das instruções do fabricante. Os cuidados se estendem ao momento da compra dos produtos. Nesse caso, no ato da aquisição o eletricista deve considerar, por exemplo, se a aplicação será em uma área interna ou externa. Atenção também ao preço, visto que junto com o excesso de oferta de produtos, há também diferentes níveis de qualidade e desempenho.

“Muitas vezes, os quadros mais baratos não são fabricados de acordo com as normas e têm em sua composição materiais que sofrem deformações com facilidade, podendo até causar incêndios. Inclusive, existem produtos no mercado cujo material utilizado é reciclável, o que não é recomendado”, explica Martucchi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.