Pessoas e imóveis em risco

Essenciais para a proteção de edificações, equipamentos e usuários, sistemas de aterramento ainda são pouco aplicados nas instalações elétricas residenciais.

O aterramento tem como função preservar os equipamentos eletroeletrônicos, garantir o bom funcionamento do circuito elétrico e proteger o usuário. A instalação adequada de um sistema de aterramento pode salvar vidas e evitar acidentes graves em ambientes residenciais. Veja a seguir, o que diz o professor e engenheiro eletricista Hilton Moreno, diretor da Revista Potência, a respeito das principais questões que norteiam este tema.

Entre outros aspectos, o especialista fala sobre como o aterramento deve ser feito, os cuidados a se tomar, as normas técnicas a seguir e os principais erros cometidos nesse tipo de instalação

1. Do que é composto um sistema de aterramento e quais suas principais atribuições?

Um sistema de aterramento é o conjunto de todos os eletrodos, barramentos, massas e elementos condutores estranhos à instalação elétrica que são interligados direta ou indiretamente entre si por meio dos condutores de aterramento, de proteção e de equipotencialização.

O aterramento de uma instalação elétrica residencial tem como funções principais garantir a segurança das pessoas em relação aos choques elétricos e proteger os equipamentos eletroeletrônicos em relação à queima por sobretensões, além de contribuir para o funcionamento adequado dos produtos e componentes da instalação.

2. Quais são as partes que integram um sistema de aterramento residencial?

O sistema de aterramento de uma residência pode ser dividido em duas partes principais (conforme apresentado na ilustração abaixo):

1) O aterramento do condutor neutro da concessionária de energia elétrica no padrão de entrada, conforme orientação da empresa distribuidora.

2) O aterramento de massas e elementos condutores estranhos à instalação elétrica que fazem parte da residência, conforme prescrição da norma ABNT NBR 5410 – Instalações elétricas de baixa tensão.

3. Por favor, esclareça melhor a diferença entre os dois tipos de aterramento.

Enquanto o aterramento do neutro no padrão é principalmente “funcional”, o aterramento das massas na instalação é “de segurança”. No primeiro caso (funcional), o objetivo é garantir que o condutor neutro esteja com o seu potencial elétrico o mais próximo possível de “zero”, para que a tensão fase-neutro fornecida para o consumidor seja a mais próxima do valor nominal contratado. No segundo caso (segurança), a finalidade do aterramento é proteger as pessoas contra choques elétricos, proteger os aparelhos contra queimas, prover um caminho seguro para as correntes de fuga e de falta, dentre outras coisas.

4. Como deve ser feito o aterramento do neutro no padrão de entrada?

Como mencionado, aterrar o neutro na entrada é uma exigência da distribuidora de energia elétrica e, dessa forma, deve seguir sua orientação. Via de regra, os detalhes, especificações, dimensionamentos e instruções sobre como realizar esse aterramento são estabelecidos nas normas (padrões) específicas de cada concessionária. Assim, o profissional responsável pelo padrão de entrada da residência deve seguir rigorosamente tais instruções, sob pena de a companhia de eletricidade local não realizar a ligação do consumidor.

Praticamente todos os padrões no Brasil determinam que o aterramento do neutro na caixa de entrada seja feito por meio de uma ou mais hastes de aterramento, com as respectivas caixas de inspeção. Trata-se de um sistema simples, relativamente barato e eficiente para a finalidade a que se destina, qual seja, levar o condutor neutro na origem da instalação elétrica ao potencial de terra. Com essa ligação, acrescenta-se mais um ponto de aterramento à já multiaterrada rede pública de distribuição em baixa tensão.

5. Como deve ser feito o aterramento das massas da instalação elétrica?

A instalação do sistema de aterramento específico da residência deve seguir as exigências da norma NBR 5410. O sistema de aterramento e equipotencialização da residência é formado por duas partes:

1) A parte que fica enterrada (no solo), denominada “eletrodo de aterramento”, formada por elementos que asseguram um bom contato elétrico com o solo.

2) A parte que é formada por diversos condutores elétricos e massas metálicas (carcaças de equipamentos, estruturas e outros elementos), situados acima do nível do solo e que deverão estar convenientemente interligados e aterrados.

6. Quais são as opões de eletrodos de aterramento?

A norma NBR 5410:2004 admite as seguintes opções de eletrodos de aterramento:

a) preferencialmente, o uso das próprias armaduras do concreto das fundações; ou

b) o uso de fitas, barras ou cabos metálicos, especialmente previstos, imersos no concreto das fundações; ou

c) o uso de malhas metálicas enterradas, no nível das fundações, cobrindo a área da edificação; ou

d) no mínimo, o uso de anel metálico enterrado, circundando o perímetro da edificação.

7. Qual o papel do condutor neutro na instalação?

Tanto pelos padrões das concessionárias quanto pela NBR 5410, é obrigatório ligar o condutor neutro, que vem da entrada, ao BEP (barramento de equipotencialização principal). Uma vez que o neutro está ligado à haste no padrão e o BEP está ligado ao eletrodo da residência, consequentemente esses dois eletrodos (do padrão e da residência) acabam sendo interligados por meio do condutor neutro. Quando isso acontece, o neutro “troca de nome” e passa a ser chamado de condutor PEN (proteção e neutro), formando assim um esquema de aterramento TN-C-S, se considerarmos desde o padrão de entrada até o local onde o BEP está situado (geralmente dentro do quadro geral da residência). Em outras palavras, o que liga o padrão da concessionária ao aterramento da instalação residencial é o neutro e as duas normas devem ser consideradas e estarem harmonizadas para o sistema como um todo funcionar com competência.

8. Quais os principais componentes da segunda parte do sistema de aterramento e equipotencialização?

Os principais componentes dessa parte do sistema são:

a) Condutor de aterramento: é o condutor de proteção que liga o barramento de aterramento principal (BEP) ao eletrodo de aterramento.

b) BEP (Barramento de Equipotencialização Principal): é o ponto central do sistema de aterramento de uma instalação. Ele recebe o condutor neutro que vem do padrão de entrada e o condutor de aterramento que vem do eletrodo de aterramento. É a partir do BEP que saem os condutores de proteção (“fio terra”) para as massas da instalação (carcaças de equipamentos, contatos de aterramento das tomadas, etc.).

c) Condutor de proteção (PE): é utilizado para conduzir correntes de fuga ou de falta para o eletrodo de aterramento, bem como promover a equipotencialização entre massas metálicas e a instalação elétrica. Por muitas vezes, é chamado de “fio terra”, muito embora essa designação não exista formalmente na terminologia brasileira.

9. Como a maioria das instalações residenciais no Brasil tratam o aterramento?

Infelizmente, a maior parte das instalações usam como sistema de aterramento da casa a haste de aterramento da concessionária, o que não está em conformidade com a normalização. A concessionária de energia elétrica, por sua vez, fiscaliza se o aterramento do padrão de entrada está de acordo com os seus requisitos. E, em caso negativo, ela não liga a energia do consumidor no padrão da rede. Porém, ninguém fiscaliza a forma como o aterramento da residência é executado e mantido.

10. Quais as implicações quando não se faz o aterramento das massas da instalação de forma adequada ou como determina a norma?

Se houver algum acidente na instalação elétrica da casa, como um choque ou incêndio, que leve a uma perícia e se conclua que, de alguma forma, o aterramento teve relação com o acidente, os profissionais envolvidos com essa instalação elétrica podem sofrer punições jurídicas decorrentes.

11. Tecnicamente, a haste de aterramento da concessionária funciona como eletrodo de aterramento?

Não é a situação ideal do ponto de vista técnico. Pode-se dizer que é uma espécie de quebra-galho, que pode funcionar ou não… Indiscutivelmente, a norma prevê as melhores soluções com resultados comprovados para lidar com situações de choques, queima de equipamentos e curtos-circuitos.

O que dizem os eletricistas:

Conversamos sobre aterramento com dois eletricistas, que são os profissionais que colocam, de fato, a mão na massa. São eles: Jailton Soares dos Santos, que também é técnico em eletrotécnica, e Paulo Roberto Rodrigues, que também é engenheiro eletricista. Veja o que eles falaram:

Jailton Soares dos Santos
Técnico em Eletrotécnica
Paulo Roberto Rodrigues
Engenheiro Eletricista

✘Como profissional eletricista, qual o seu ponto de vista sobre a instalação do aterramento residencial?

➧ A instalação do aterramento residencial é primordial para a segurança dos usuários e preservação dos equipamentos em uma possível falha na isolação. Mas, infelizmente, a população e muitos profissionais não dão a devida importância a esse tema. (Jailton Soares dos Santos)

✘ Na sua opinião, é fácil ou difícil fazer o aterramento residencial conforme a norma (NBR 5410)?

➧ Atualmente, com a desatualização das instalações elétricas e a necessidade de adequação, a instalação dos sistemas de aterramento tornou-se difícil, não do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista cultural dos usuários. Isto porque quando recomendamos a instalação do sistema e informamos quais as práticas a serem adotadas (intervenções da área civil, ou seja, quebra-quebra), muitos usuários lançam mão de adequar o imóvel a um sistema de aterramento seguro e acabam optando pelo aterramento da concessionária. (Jailton Soares dos Santos)

➧ Se pensado e projetado com antecedência, antes do começo das obras, o projeto de aterramento é simples, fácil e de baixo custo, pois usa-se a ferragem das fundações; esta é a infraestrutura de aterramento ideal. Porém, se a obra já estiver adiantada, temos o transtorno das quebradeiras para que seja feito, no mínimo, um anel metálico enterrado ao redor da edificação. (Paulo Roberto Rodrigues)

✘ Os materiais para fazer esse tipo de aterramento são encontrados com facilidade no mercado?

➧ Sim, hoje o mercado está bem atendido no que se refere aos materiais necessários para implantar um sistema de aterramento residencial. Mas, vale lembrar que escolher um fabricante/fornecedor de qualidade desses materiais é o começo para se ter uma boa instalação. (Jailton Soares dos Santos)

✘ É comum encontrar por aí aterramentos das residências que usam apenas o aterramento da concessionária? Por quê?

➧ Não é só comum como é a prática mais usada hoje nas residências devido às dificuldades encontradas pelo profissional em convencer o usuário (cliente) da real necessidade de executar uma intervenção (obra) para regularizar a instalação do sistema. Por outro lado, também temos o desconhecimento de alguns “profissionais” a respeito de como se deve fazer um aterramento em conformidade com a norma NBR 5410. (Jailton Soares dos Santos)

➧ Sim, infelizmente isso é muito frequente, devido à falta de conhecimento e qualificação dos empreiteiros e eletricistas instaladores. (Paulo Roberto Rodrigues)

É frequente encontrar instalações que não têm aterramento algum?

➧ Com certeza. Não precisamos de muito esforço para encontrar residências totalmente não-conformes com a norma (NBR 5410), em função da desinformação da população, dos profissionais desatualizados e da falta de fiscalização de órgãos competentes. Um levantamento do Instituto Brasileiro do Cobre (Procobre) revelou que cerca de 50% das residências não contemplam um sistema de proteção (aterramento). (Jailton Soares dos Santos)

➧ Sim, porque a lâmpada acende, a máquina de lavar e a geladeira funcionam mesmo sem “segurança”, ou seja, sem aterramento. Infelizmente, o consumidor só percebe a vital importância do aterramento depois de ocorrido o acidente. (Paulo Roberto Rodrigues)

2 comentários em “Pessoas e imóveis em risco

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