Eficiência energética avança nos estádios e redefine o futuro das arenas esportivas

Por Wilson Morais*

Os estádios deixaram de ser apenas espaços esportivos para se tornarem arenas altamente conectadas e operação contínua. A preparação para a Copa do Mundo de 2026 coincide com um momento de forte expansão global dos investimentos em “smart stadiums”, ampliando as discussões sobre eficiência energética, automação predial e infraestrutura robusta para grandes eventos.

O crescimento desse mercado ajuda a dimensionar a velocidade desse avanço. Estimativas da consultoria Custom Market Insights (CMI) apontam que o setor global destas arenas inteligentes pode alcançar US$ 38,27 bilhões até 2033. Em cenários de aceleração mais intensa da digitalização, conectividade e expansão das redes 5G, projeções da Market.us News indicam que esse volume pode chegar a US$ 79,3 bilhões no mesmo período, impulsionado pela integração entre inteligência artificial, IoT e sistemas digitais de gerenciamento energético. O avanço desse mercado reflete uma mudança profunda no próprio modelo operacional das arenas esportivas. Hoje, os estádios deixaram de operar apenas em dias de jogos e passaram a funcionar como centros permanentes de entretenimento, recebendo shows, convenções e eventos corporativos praticamente durante todo o ano.

Nesse cenário, as arenas se transformaram em estruturas altamente conectadas e intensivas em consumo de energia elétrica. A combinação entre sistemas de iluminação de alta potência, climatização, placares eletrônicos de alta definição, equipamentos para transmissão ao vivo, conectividade e sistemas avançados de segurança transformou os estádios modernos em estruturas comparáveis a pequenas cidades inteligentes.

Segundo pesquisa da Duke University, um estádio esportivo moderno pode demandar um consumo estimado entre 5 e 10 megawatts (MW) de eletricidade durante um evento — volume equivalente ao consumo energético de 5 mil residências simultaneamente. Isso ajuda a explicar por que eficiência energética deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a representar uma questão diretamente ligada à sustentabilidade financeira das operações.

O conceito de estádio inteligente hoje vai muito além da substituição da iluminação convencional por LED. As arenas mais modernas passaram a operar com plataformas integradas capazes de controlar iluminação, ventilação, climatização, distribuição de energia elétrica, segurança e monitoramento em tempo real.

Na gestão energética, isso permite que o consumo seja ajustado automaticamente conforme ocupação do estádio, temperatura externa, incidência de luz natural e demanda operacional. Sistemas integrados de automação predial e gerenciamento inteligente de cargas vêm permitindo ganhos relevantes de eficiência energética em arenas esportivas. Parte relevante dos estádios envolvidos na Copa do Mundo de 2026 vem ampliando investimentos em automação predial, gerenciamento inteligente de energia, conectividade, iluminação eficiente e infraestrutura robusta, refletindo uma tendência global de transformação das arenas esportivas em plataformas digitais altamente conectadas e energeticamente mais eficientes.

Relatório publicado pelo New Weather Institute estima que a Copa do Mundo de 2026 pode registrar a maior pegada de carbono da história da competição, impulsionada pelo aumento do número de partidas — de 64 para 104 jogos —, pela operação distribuída entre três países e 16 cidades-sede e pela elevada demanda logística e energética necessária para suportar um evento desta magnitude.

A Europa vem se consolidando como um dos principais laboratórios dessa evolução. Na Espanha, o Estádio El Sadar, casa do Osasuna, passou recentemente por uma ampla modernização de infraestrutura elétrica e automação predial, integrando iluminação, distribuição de energia, segurança e operação digital em uma plataforma centralizada voltada à eficiência operacional. Outro caso emblemático aconteceu na Generali Arena, estádio do FK Austria Wien. A arena passou a operar com sistemas integrados de iluminação, ventilação, climatização e gerenciamento energético capazes de ajustar automaticamente consumo e operação conforme a demanda, ocupação e dinâmica dos eventos realizados no complexo esportivo.

A integração entre geração renovável e infraestrutura esportiva também vem ganhando protagonismo em diferentes mercados. Na Skagerak Arena, sistemas inteligentes de gerenciamento de energia e painéis fotovoltaicos integrados à operação da arena passaram a ampliar autonomia energética e reduzir a demanda da rede de distribuição.

No Brasil, o debate começa a ganhar escala em meio à profissionalização acelerada da gestão das arenas multiuso. Após o ciclo de modernização iniciado na última década, aumentaram os investimentos em eficiência energética, automação e modernização da infraestrutura elétrica em grandes complexos esportivos.

Parte desse movimento ganhou força com a preparação da infraestrutura esportiva brasileira para grandes eventos internacionais. Além das próprias arenas, projetos ligados à Copa do Mundo de 2014 impulsionaram investimentos em subestações elétricas, sistemas de automação, sistemas de proteção e modernização da rede de distribuição em diferentes cidades-sede.

Em arenas como Mané Garrincha, Pernambuco, Pantanal, Amazônia e Castelão, a infraestrutura passou a incorporar soluções voltadas à confiabilidade energética, proteção elétrica, automação e estabilidade operacional para suportar grandes volumes de público, conectividade e transmissão em tempo real.

Mais do que reduzir consumo elétrico, a eficiência energética começa a redefinir a própria lógica operacional das arenas esportivas. Em um cenário de digitalização crescente, pressão por sustentabilidade e necessidade de monetização contínua dos espaços, infraestrutura inteligente tende a deixar de ser diferencial para se tornar requisito básico de competitividade.

*Wilson Morais é gerente de segmento Infraestrutura da ABB Eletrificação

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