Energyfintech transforma conta de luz em crédito e benefícios para o varejo

Criada em 2024 por um time que passou por Loft, Guiabolso, Moip e Kovi, a Liora nasceu para fazer com a energia algo parecido com o que as fintechs fizeram com pagamentos: transformar um fluxo recorrente e inevitável em infraestrutura para uma série de produtos financeiros. A startup atua como uma plataforma de “fintechização da energia”, usando a conta de luz como lastro para crédito, benefícios e serviços destinados principalmente a pequenas e médias empresas e consumidores de alto consumo.

Márcio Reis, Renata Feijó e Bruno Poljokan
Cofundadores da Liora Energia

A Liora foi fundada por Renata Feijó, Bruno Poljokan e Márcio Reis, executivos com histórico na construção e escala de negócios digitais em ambientes regulados e intensivos em tecnologia. Na prática, a empresa opera usinas de geração distribuída (GD) e outras soluções reguladas, gera economia na fatura de energia e converte parte desse valor em benefícios financeiros dentro de ecossistemas parceiros.

“O setor avançou na geração distribuída, mas ainda trata energia quase só como redução de custo”, afirma Bruno Poljokan, cofundador da Liora. “Para nós, a energia é um novo pilar da infraestrutura financeira, com características muito parecidas com aluguel e pagamentos: entra todo mês, é previsível e está presente no orçamento de praticamente todos os brasileiros.”

Ao longo de suas trajetórias em empresas de alto crescimento como Loft e Kovi, os fundadores identificaram um padrão comum: custos fixos essenciais, como moradia, mobilidade e energia, são tratados apenas como despesa, quando poderiam funcionar como infraestrutura econômica capaz de sustentar novos produtos e serviços. A combinação de experiência em produto, tecnologia, dados, finanças e regulação orientou o desenho de um modelo que conecta energia e serviços financeiros dentro das regras do setor elétrico.

Energia como lastro financeiro

O ponto de partida do modelo é a gestão de usinas de GD, que geram créditos energéticos para os clientes conectados à rede das distribuidoras. A economia obtida pode ser utilizada de diferentes formas: o cliente pode optar pelo desconto direto na conta de luz ou direcionar total ou parcialmente esse valor para acessar produtos e serviços estruturados com parceiros. Nesse caso, a Liora organiza o fluxo gerado pela economia de energia como base para financiar crédito, equipamentos ou outros benefícios, preservando sempre a opção de uso direto do desconto.

O cliente continua recebendo energia da distribuidora local, que permanece responsável pelo fornecimento físico da energia. No entanto, o relacionamento operacional passa a ser feito diretamente com a Liora, incluindo emissão de fatura, atendimento e gestão dos benefícios, com pagamento realizado à própria Liora. A energyfintech atua na infraestrutura, alocando o consumo em sua infraestrutura de geração, gerando créditos na fatura e transformando a economia em soluções como linhas de crédito com juros reduzidos ou zero; financiamento de equipamentos (por exemplo, refrigeradores para pequenos varejistas); cashback em cartões de benefícios, no saldo livre; e serviços de recorrência, como planos de telefonia móvel embutidos na mesma lógica de gasto mensal.

“Usamos a energia como meio, não como fim”, diz Márcio Reis, cofundador da empresa. “O pequeno empresário não quer aprender regulação elétrica; ele quer crédito mais barato, um equipamento novo ou um benefício que caiba no bolso sem aumentar o gasto total.”

Da energia à infra de dados

A Liora se posiciona menos como uma comercializadora de energia e mais como uma infraestrutura tecnológica que conecta energia, dados e produtos financeiros, sempre observando as regras da ANEEL e do setor elétrico. A empresa desenvolveu uma plataforma própria que integra gestão de usinas, alocação de créditos, cálculo de benefícios e conexão com parceiros corporativos, com forte uso de automação e inteligência artificial para escalar a operação.

Ao lidar com um consumo recorrente e difícil de ser postergado, a empresa passa a acumular uma base de dados de comportamento energético pouco explorada no varejo brasileiro. “Dados de energia são quase um espelho da vida real de um negócio. Se o consumo cresce, é um sinal de operação aquecida; se cai, algo está desacelerando”, afirma Reis. “Isso permite construir modelos de risco e produtos financeiros lastreados em energia, sobretudo para PMEs que muitas vezes têm pouco histórico formal no sistema financeiro.”

Segundo a companhia, o tratamento desses dados segue princípios semelhantes aos adotados por instituições financeiras: uso apenas para fins específicos, aderência à legislação de proteção de dados, minimização de coleta e ausência de venda de informações para terceiros.

Tese atrai capital

Hoje, a empresa opera usinas e carteiras de clientes em estados como Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia, além de regiões do interior de São Paulo, como Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, e mira contas de luz a partir de aproximadamente R$ 200 – com foco em tíquetes a partir de R$ 700, típicos de pequenos comércios e negócios intensivos em energia. Após dobrar de tamanho nos dois primeiros meses de 2026, a Liora projeta crescer mais 15 vezes até o fim do ano, expandindo na mesma proporção a base de clientes, o volume de energia operada e a receita.

Distribuição via grandes marcas

A estratégia de distribuição passa por grandes marcas e ecossistemas que já têm relação estabelecida com o cliente.

Na prática, a solução da energyfintech é embutida em ofertas de empresas de benefícios corporativos, varejistas, indústrias de bens de consumo e administradoras de condomínios. Em vez de uma “assinatura de energia”, o cliente enxerga um cashback maior no cartão, uma linha de crédito a juros zero dentro de uma plataforma conhecida ou a possibilidade de financiar equipamentos usando como lastro a economia da conta de luz.

“É uma forma de usar a energia para turbinar produtos que as pessoas já entendem e confiam”, resume Bruno Poljokan.

Regulação como base, não como aposta

A Liora opera dentro das regras da geração distribuída e das normas da ANEEL. A empresa destaca que o modelo não se apoia em promessas de benefícios regulatórios futuros, mas na eficiência operacional e na capacidade de extrair valor econômico da infraestrutura existente. 

“O modelo da Liora só faz sentido se for sustentável do ponto de vista regulatório”, diz Renata Feijó, cofundadora da empresa. “Nosso papel é mostrar que é possível usar a infraestrutura existente para criar mais valor para PMEs e consumidores de alto consumo, com previsibilidade e transparência.”

Com operação ativa no Nordeste e Sudeste, o plano da Liora é ampliar a presença nacional e consolidar o conceito de energia como infraestrutura financeira. “Para muita gente, a conta de luz é apenas um custo fixo que pesa no fim do mês”, afirma Renata. “Se conseguirmos transformar esse mesmo boleto em um canal de acesso a crédito, cashback e serviços relevantes, teremos dado um passo importante na direção de um mercado de energia mais próximo da realidade do varejo brasileiro.”

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